Na segunda vez em que subiu ao palco para receber uma estatueta do Grammy, a cantora Maria Rita falou de como ela via a premiação na TV quando era adolescente e de como julgavam, ela e o pai, que aquilo fosse importante para os artistas. “Agora, eu sou um de vocês”, afirmou.

Ao final da noite, ela recebia três dos quatro prêmios a que concorria e a profecia parecia cumprida, mas, sinceramente, é preciso rezar para que Maria Rita continue sendo uma de nós e não se torne nunca um deles. O Grammy Latino, entregue pela 5.ª vez, é um samba do chicano doido que, embora se debruce sobre obras artísticas muito distintas, consagra fundamentalmente o que a indústria produz para o mercado hispânico – e quase sempre coisas de muito pouca qualidade.

É sintomático que tenham dado a Alejandro Sanz o prêmio de Álbum do Ano que, por merecimento, deveria ter ido para Bebo y Cigala, de Bebo Valdés e Diego El Cigala, esse sim um discaço. Sanz (que não recebeu seus prêmios) mobiliza multidões, vende milhões, é consagrado e tem apelo comercial.

Maria Rita, embora merecedora, está lá menos por seus dotes artísticos do que por uma reverência à sua surpreendente performance nas lojas (embora fosse difícil perder, na categoria revelação, para a esqualidez de Akwid, Obie Bermúdez, Superlitio e Mauricio & Palodeagua).

Entre os momentos mais tristes do desfile kitsch do Grammy, estava o número de abertura, com o “neo-Ovelha” David Bisbál e a gritalista Jessica Simpson em dueto de matar. Os números musicais, como o de Paulina Rubio (Pau-Latina), com seus dançarinos “latinos” que pareciam saídos dos piores clichês da salsa hollywoodiana, eram no mínimo constrangedores.

A transmissão do Grammy Latino pelo SBT foi bastante razoável, pontuada de entrevistas prévias e comentários pertinentes. João Marcelo Bôscoli, além de tudo, é da família vencedora (filho de Elis, irmão de Maria Rita, filho de Ronaldo Bôscoli) e sabia do que falava.