A quadrilha da América
surpreende os fãs e fica nua.

Havia a expectativa de que Em carne viva ganhasse uma indicação para o Oscar. Em Manhattan, no outono nova-iorquino, a diretora Jane Campion conversou com o repórter numa suíte do Hotel The Mark, o preferido de Woody Allen. Confessou que não tinha a menor paciência com o Oscar e que não ia fazer o jogo de ninguém para ser indicada. Não foi e a conseqüência é que o filme, que teve muita publicidade no lançamento americano – por mostrar Meg Ryan nua -, ficou mofando todo este tempo nas prateleiras da distribuidora Columbia. Ocorreu o mesmo com outro filme ambicioso da Columbia – o western Desaparecidas, de Ron Howard -, que até hoje não sabe se terá lançamento nos cinemas ou irá diretamente para o vídeo. Pelo menos Em carne viva estréia hoje.

Inicialmente, Em carne viva era um projeto de Nicole Kidman, que adquiriu os direitos do romance de Suzanne Moore e logo pensou em Jane Campion para a direção. Nicole é australiana Jane é neozelandesa, mas tornou-se diretora de prestígio na Austrália, com filmes como Um Anjo em minha mesa e O piano (que ganhou a Palma de Ouro). Cooptada por Nicole, Jane sentiu que o relato de Suzanne Moore lhe permitiria realizar um suspense psicológico na linha de um de seus filmes preferidos – Klute, o passado condena, de Alan J. Pakula, com Jane Fonda como Bree Daniels, a prostituta perseguida por um assassino (e que pensa, lá pelas tantas, que o detetive interpretado por Donald Sutherland é o criminoso).

Quando Nicole caiu fora para fazer As horas, Jane seguiu com o projeto e teve ?a sorte?, como disse, de conseguir o aval de Meg Ryan. É a professora solitária que testemunha um assassinato, ou o prelúdio de um assassinato, e passa a ser perseguida pelo criminoso. Mark Ruffalo faz o policial encarregado de defendê-la, os dois vão para a cama e, na seqüência, Meg começa a achar que ele é o assassino. Em carne viva fez sensação nos EUA não só pela nudez frontal de Meg, a doce garota de Sintonia de amor e Mensagem para você, mas também por mostrar, em detalhe, a genitália masculina. Quando Meg desce uma escada no bar ela vê, no escuro, um casal praticando sexo oral. Foge e, no dia seguinte, é informada de que a mulher foi morta. E começa o pesadelo para Meg, que, no filme, se chama Frannie.

Jane Campion explica o que a atraiu no material – O livro de Suzanne (Moore) aborda um tema que me interessa muito. A natureza do desejo é volátil e nos fragiliza. Acho que nós, mulheres, mesmo quando liberadas, ainda temos alguma coisa do complexo de Cinderela, aquela idéia do conto de fadas idealizado como gostaríamos que fosse a nossa vida. O desejo nem sempre nos confronta com o lado mais sombrio da realidade, mas é muito difícil que a idealização sobreviva à realidade.” Ela sempre viu a história de Em carne viva como uma espécie de Alice no País das Maravilhas, mas sem Lewis Carroll.

Filme de terror revela a sociedade

Já tem gente arrancando os cabelos. A seleção do Festival de Cannes deste ano, divulgada na quarta-feira, promete uma disputa acirrada pela Palma de Ouro. A seleção está muito interessante, com autores importantes, mas, de repente, encontra-se entre eles, fora de concurso, um filme como Madrugada dos Mortos. Um trash de luxo, feito com cor e muitos efeitos. Só pode ser influência do presidente do júri, Quentin Tarantino. Talvez não seja. Embora seja difícil definir o terror de Zack Snyder como obra de arte, Madrugada dos Mortos é fascinante pelo que revela sobre a sociedade americana atual.

Madrugada dos Mortos estréia hoje em todo o Brasil. Desobrigue-se de gostar (ou não) e veja o filme como uma experiência de fundo sociológico. Ou psicológico, que seja, já que as chaves de Freud, aplicadas ao trabalho de Snyder, desvendam mundos mais complexos e perturbadores do que muito filme humanista anódino que anda ganhando prêmios por aí. A psicanálise investiga o inconsciente. Um filme como Madrugada dos Mortos trabalha nessas camadas mais subliminares. Se é verdade que filmes costumam ser comparados a sonhos, que os espectadores sonham acordados no escurinho dos cinemas, é bom avisar que o sonho, aqui, vira pesadelo bravo.

Vamos logo acrescentando que não é tão aterrador como promete o trailer. Mas Snyder não perde, em termos de impacto, se comparado ao filme que deu origem ao dele. Em 1968, George A. Romero fez o cult A Noite dos Mortos-Vivos. O mundo estava em transe, no mítico 68, e vinha aquele filme sobre os mortos que se levantavam para semear o caos numa comunidade americana. A Noite dos Mortos-Vivos foi encarado como metáfora da crise que os EUA, já atolados no Vietnã, enfrentavam naquele momento e que só iria piorar nos anos seguintes, agravada pelo escândalo de Watergate. A Noite dos Mortos-Vivos virou agora Madrugada dos Mortos e o amanhecer filmado por Zack Snyder não encerra nenhuma promessa de felicidade, como os dos filmes da trilogia de Michelangelo Antonioni – que, evidentemente, não têm nada a ver com o universo de terror deste filme. A última frase do filme é de um homem que diz que vai dar tudo certo e uma mulher responde que não, que nada mais poderá dar certo e ouve-se um tiro. Não tira a graça contar isso porque você não sabe quem são essas figuras, não conhece o contexto. Só deve ir preparado para o apocalipse, segundo Snyder.