Em sua segunda edição, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) conseguiu consolidar seu lugar na agenda da cidade. Encerrado no domingo, 15, após dez dias de programação, o evento já tem data marcada para 2016 e foi capaz de superar várias das dificuldades do ano de estreia.

Com uma programação ousada – fora dos padrões comerciais e até mesmo de outros festivais do gênero no País -, a MIT surpreendeu em 2014 ao atrair uma multidão aos teatros. Mas, sem a infraestrutura necessária para dar conta de tamanha demanda, amargou o custo do próprio sucesso.

Desta vez, houve mudanças em relação aos ingressos, que passaram a ser vendidos a preços populares (R$ 20) e não mais distribuídos gratuitamente. Todos os 12 espetáculos – em 2014, foram dez – foram apresentados em, ao menos, três sessões. As ações de cunho formativo também foram ampliadas, maneira de intensificar o lastro deixado pelo festival.

Os acertos e avanços não conseguiram, porém, tirar a mostra de certo gueto. Um território no qual consegue imensa reverberação entre os “convertidos”. Mas como alcançar outros públicos? Distribuir ingressos provoca filas imensas e retira a oportunidade de quem não dispõe de três, quatro horas para esperar por um espetáculo. Vender barato e antecipadamente parece a melhor ideia. Só que quem não conhecia a iniciativa continuará sem ter a chance de conhecê-la. É um xadrez complicado. Mais uma vez decorrente da alta qualidade da seleção da mostra.

A existência de um foco claro – nos conflitos e desordens geopolíticas – tornou possível compreender melhor as intenções da curadoria, assinada por Antônio Araújo. Bem como jogou luz sobre vínculos e possibilidades de diálogo entre os espetáculos.

Woyzeck, da Ucrânia, e Arquivo, de Israel, deram conta dos interstícios das crises vividas em seus respectivos territórios – e, mais do que isso, sustentavam-se como criações artísticas que conseguiam ultrapassar seus contextos específicos.

Opus 7, da companhia russa Dmitry Krymov, abordava, primeiramente, a matança de judeus no contexto da Segunda Guerra. A seguir, pontuava o percurso de Shostakovich (1906-1975), um dos grandes compositores do século 20, e a censura que lhe foi imposta pelo regime de Stalin. Em ambas as partes, textos e teses eram substituídas por imagens poderosas e um burilado trabalho dos intérpretes.

O belo e simples As Irmãs Macaluso deixava o fundo político mais nublado.

Tratava das perdas e traumas em uma família de sete irmãs. E, para isso, tomava como ponto de partida uma apurada observação de seu entorno, a Sicília, o universo da máfia e da sociedade patriarcal.

Algo de semelhante ocorria nos títulos colombianos – Morrer de Amor e Matando o Tempo – assim como na obra do holandês Ivo Van Hove, Canção de Muito Longe. Observadas bem de perto, células familiares, com seus dramas e perdas, deixavam entrever o eixo político pelo qual estavam atravessadas. Um executivo de Amsterdã que leva uma vida anestesiada em Nova York. Os conflitos domésticos em uma casa da periferia de Bogotá.

As melhores surpresas, contudo, vieram das obras que escapavam, ao menos em uma primeira observação, a esse escopo temático das zonas de conflito. Sem abrir mão, é verdade, de problematizar questões do presente. Stifters Dinge, do alemão Heiner Goebbels, trouxe um construtor maravilhoso, mistura de máquinas e música, ao Sesc Ipiranga – pena a obra não ter ficado mais tempo e aberta a um público maior.

Para fechar, Senhorita Julia, em montagem da também germânica cia. Schaubühne, arrebatou com uma delicada teia entre teatro e cinema e uma reflexão – talvez a mais perspicaz em anos – sobre o alcance e o tamanho da opressão entre classes. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.