O escritor moçambicano Mia Couto é notável por sua prosa poética, cuja força, especialmente em um país tão marcado por problemas como o seu, permite que o povo não abandone sua capacidade de sonhar. Mia agora se volta para um projeto mais audacioso: a trilogia As Areias do Imperador, que narra os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império da África dirigido por um africano. E o primeiro volume, Mulheres de Cinza, chega agora, com lançamentos no Rio e em São Paulo, com a presença do autor.

A trama gira em torno de Ngungunyane (ou Gunguhane, como preferiam os portugueses), último dos imperadores que governou a metade sul de Moçambique, no século 19. Derrotado pelas forças portuguesas em 1895, ele foi deportado para os Açores. Dois narradores se alternam na condução da história: Imani, uma adolescente da tribo VaChopi que foi educada por jesuítas, e Germano de Melo, sargento português que foi degredado depois de apoiar revoltas contra a monarquia. Duas visões que permitem ao autor exercitar escritas distintas, entre o poético e o burocrático. Também a reavaliar o passado.

A história habitualmente é contada pelos vencedores. E o passado serve, muitas vezes, para justificar o presente. Quais inverdades ou falsificações históricas você confronta com a trilogia?

O passado é sempre uma narrativa construída seja a nível individual, seja a nível coletivo. A intenção nesse livro não é denunciar algo em particular. Quero sobretudo mostrar como é grave estarmos a fundar um presente na base de uma única versão do passado. Sem uma narrativa do passado que não seja diversa e diversificada, seremos mais pobres. Não temos que proclamar que a História oficial de uma nação é uma “mentira”. Mas é preciso dizer que aquilo que sabemos não é o que foi provado por alguma caução científica, mas aquilo que se elegeu entre luzes e sombras. Existe, por exemplo, a tendência de reduzir diversidades e anular a complexidade dos tempos passados. Subsiste a ideia romântica de que o passado africano, antes da chegada dos europeus, consistia em um convívio harmonioso e sem conflito. Isso é felizmente falso porque as sociedades africanas, como todas as outras no mundo, têm o direito ao seu conflito interno, sendo esse o motor da sua evolução histórica. Curiosamente, a ideia da ausência de conflitos é uma herança que parece querer promover o que foi o nosso continente. Mas essa ingenuidade condescendente resulta da teoria europeia do bom selvagem, que infantiliza as sociedades e a gente africana.

Como será a trilogia?

A trilogia fala de uma figura africana que foi mistificada pelos dois lados, Portugal e Moçambique. Os portugueses reinventaram nesse imperador um homem mais poderoso do que era realmente. Era preciso mostrar às potências colonizadoras rivais que Portugal tinha poderes militares para aniquilar esse império africano que, tendo sido grandioso, era já vazio e morto quando os portugueses decidiram pelo assalto final. Por outro lado, os moçambicanos precisavam de heróis nacionais e nacionalistas. E investiram na mistificação de um personagem que nunca foi realmente aquilo que hoje é proclamado.

MULHERES DE CINZAS

Autor: Mia Couto

Editora: Companhia

das Letras (344 págs., R$ 39,90)

Lançamento. Sesc Pompeia. Teatro.

R. Clélia, 93. Tel. 3871-7700. Leitura de trechos por Milton Hatoum, Mariana Lima e Maria Fernanda Cândido.

Dia 25/11, 20 h. Grátis.

Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.