O estado da arte retratado por nomes que pincelaram o século XX com várias propostas revolucionárias, é isso que o Museu Oscar Niemeyer abriga, até fevereiro de 2011, com a mostra De Picasso a Gary Hill, realizada em parceria com o Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), da Espanha, e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, de Fortaleza (CE).

Aqui a exposição conta ainda com o apoio do Governo do Paraná, da Secretaria de Estado da Cultura e da Caixa Econômica Federal. É a última oportunidade de assisti-la, já que a exposição será desfeita depois.

Os curadores José Guedes e Roberto Galvão Lima preferiram selecionar as obras por grupos de tendências, ao invés de seguirem uma linha meramente cronológica.

Nesta entrevista, o curador José Guedes, explica os objetivos do projetos e traça uma análise sobre as inovações do século XX, o impacto dos recursos digitais nas artes e a importância da América do Sul na arte mundial, sobretudo, com o uruguaio Carmelo Arden Quin, criador do movimento Madi, e o brasileiro Aldemir que conquistou o único prêmio entre os artistas plásticos nacionais da respeitadíssima Bienal de Veneza, em 1955.

O Estado – Qual foi o fio condutor da seleção das obras dessa mostra? De que modo vocês organizaram as 35 obras de forma a dar uma unidade na mostra que chama atenção pela diversidade de linguagens e técnicas usadas?

João Guedes – O século XX tem mais revoluções no campo das artes visuais que os anteriores todos juntos. Logo no início, temos Duchamp, com seu mictório com status de escultura, e Picasso que, juntamente com Braque, criou o cubismo.

O primeiro, para quem o contexto é determinante na legitimação da obra de arte, criou aberturas que ressonam no conceitualismo que alimenta a pós-modernidade.

Para o segundo, a obra deixava de ser representação da realidade para ter autonomia como objeto, levando-se em conta, sobretudo, aspectos formais. Essa é a vertente escolhida pela curadoria na mostra De Picasso a Gary Hill.

OE – A arte ocidental moderna é o grande foco da mostra, o objetivo com a exposição é trazer para o grande público o conhecimento sobre alguns dos expoentes da arte do século XX?

JG – O objetivo principal é fazer com que as pessoas mergulhem nos universos da arte do século 20 através de criadores bastante representativos. Podemos ver, além dos artistas consagrados internacionalmente, obras de latino-americanos e brasileiros que deram seus recados bem pessoais contribuindo para a diversidade suprema que é a arte do referido século.

Um exemplo é o artista uruguaio Carmelo Arden Quin, que acaba de falecer aos 97 anos. Ele foi criador do movimento Madi, certamente a maior contribuição da América do Sul para a arte mundial.

Letícia Parente é percursora da vídeoarte no Brasil trabalhando em sintonia com os artistas dessa modalidade no resto do mundo. Antonio Bandeira foi um dos criadores do Tachismo (pintura feita com manchas), ao lado de Bryant e Wolls.

Aldemir incorpora a antropofagia do modernismo brasileiro. Ele foi o único brasileiro até então laureado com um prêmio na Bienal de Veneza (1955). A exposição tem vários universos para serem visitados.

OE –
Para o senhor, o que representou a produção artística no século passado? A influência do universo digital (ao final do século XX) acarretou em quais ganhos e perdas para a arte do século XXI?

JG – Como já falei, o século passado é repleto de inovações. O artista contemporâneo tem um vasto universo de tecnologias para materializar da melhor maneira possível suas ideias.

Mas essas tecnologias também servem para camuflar a falta de talen,to. Na exposição temos exemplos de bom uso, como é o caso da videoinstalação de Gary Hill. Aos curadores cabe separar o joio do trigo.

OE – Apesar da diversidade constatada num primeiro momento quando se olha para a seleção da mostra, é notório o caráter arrebatador das produções dos artistas selecionados. Isso também guiou o trabalho de curadoria da mostra?

JG –
Certamente que sim. Fazer um panorama da arte de um século é missão impossível, sobretudo, numa exposição com poucas obras. A curadoria, dentro do universo que dispunha (basicamente a coleção do Instituto Valenciano de Arte Moderna), e da determinação de priorizar aspectos formais (os conceituais caberiam em outra mostra) procurou escolher obras que melhor representassem esses artistas e as inovações propostas por eles.

Serviço

Mostra De Picasso a Gary Hill. Visitação: até 27 de fevereiro. Local: Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999). Aberto de terça a domingo, das 10h às 18h. Venda de ingressos até 17h30: R$ 4,00. Gratuito para grupos agendados da rede pública, do ensino médio e fundamental, para estudantes até 12 anos, maiores de 60 anos e no primeiro domingo de cada mês.