O escritor colombiano Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira aos 87 anos, informaram pessoas próximas da sua família. Vencedor do Nobel de Literatura e conhecido pelo realismo fantástico, García Márquez é o autor de “Cem Anos de Solidão”, de 1967, que vendeu mais de 50 milhões de cópias em mais de 25 idiomas. Ele morreu em sua casa na Cidade do México, por volta do meio-dia (horário local), segundo as mesmas fontes.

Considerado o escritor mais popular de língua espanhola desde Miguel de Cervantes, García Márquez foi comparado a Mark Twain e Charles Dickens e ficou conhecido por obras ficcionais extravagantes e melancólicas – entre elas “Crônica de uma Morte Anunciada”, “O Amor nos Tempos do Cólera” e “Outono do Patriarca”.

As suas histórias o tornaram o mais conhecido praticante da literatura de realismo mágico, um mistura ficcional do cotidiano com elementos fantásticos, com personagens como um menino que nasce com um rabo de porco e um homem arrastado por um enxame de borboletas amarelas.

A sua morte foi confirmada por duas pessoas próximas à família, que falaram sob condição de anonimato por respeito à privacidade da família.

“Cem Anos de Solidão” foi “o primeiro romance em que os latino-americanos se reconheceram, que os definiu, celebrou a sua paixão, sua intensidade, sua espiritualidade e superstição, sua grande propensão ao fracasso”, disse o biógrafo Gerald Martin à Associated Press.

Quando recebeu o prêmio Nobel em 1982, García Márquez descreveu a América Latina como uma “fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiana é apenas um número mais, destacado pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todas as criaturas dessa realidade sem limites, tivemos de pedir pouco da imaginação, porque o nosso problema crucial tem sido a falta de meios convencionais para tornar nossas vidas críveis.”

Junto a escritores como Norman Mailer e Tom Wolfe, García Márquez foi também um praticante da não-ficção literária que se tornaria conhecida como Novo Jornalismo. Ele se tornou um representante do jornalismo latino-americano, com obras magistrais da narrativa de não-ficção, que incluem a “Relato de um Náufrago”, o conto de um marinheiro perdido em um bote salva-vidas por 10 dias.

Outros escritos incluem um perfil do presidente da Venezuela Hugo Chávez e o relato vívido de como traficantes de cocaína liderados por Pablo Escobar haviam rasgado o tecido social e moral de sua Colômbia natal, sequestrando membros de sua elite, em “Notícias de um sequestro”. Em 1994, García Márquez fundou a Fundação Ibero-americana para Novo Jornalismo, que oferece treinamento e competições para elevar o padrão da narrativa e do jornalismo investigativo na América Latina.

Como muitos escritores latino-americanos, García Márquez transcendeu o mundo das letras. O homem conhecido como “Gabo” tornou-se um herói para a esquerda latino-americana, como um aliado precoce do líder revolucionário cubano Fidel Castro e um crítico de intervenções violentas de Washington do Vietnã ao Chile.

García Márquez nasceu em Aracataca, um pequeno município colombiano perto da costa caribenha, em 6 de março de 1927. Ele era o mais velho de 11 filhos do casal Luisa Santiaga Marquez e Gabriel Elijio Garcia, uma telegrafista e um errante farmacêutico homeopático que também era uma espécie de namorador e

pai de pelo menos quatro filhos fora do casamento.

Logo após o seu primeiro filho ter nascido, os pais de García Márquez o deixaram com seus avós maternos e se mudaram para Barranquilla, onde o pai do escritor abriu uma farmácia, esperando ficar rico.

Garcia Marquez foi criado até os 10 anos de idade pela avó e pelo avô, um coronel aposentado que lutou na guerra devastadora de mil dias que acelerou a perda por parte da Colômbia do istmo do Panamá.

Os contos d,os avós dariam munição para a ficção de García Márquez e Aracataca se tornou o modelo para Macondo, a vila cercada por plantações de banana aos pés das montanhas de Sierra Nevada onde ocorre a trama de “Cem Anos de Solidão”.

“Eu disse diversas vezes para a minha família que eu comecei a contar coisas e histórias quase que desde que nasci”, afirmou o escritor uma vez a um entrevistador. “Desde que aprendi a falar.”

Os pais de García Márquez continuaram tendo filhos, com dificuldades para pagar as contas. O primogênito foi enviado para um internato estatal fora de Bogotá, onde se tornou um ótimo estudante e leitor voraz de Hemingway, Faulkner, Dostoievski e Kafka.

García Márquez publicou sua primeira obra de ficção como estudante, em 1947, enviando uma pequena história para o jornal El Espectador após seu editor literário escrever que “a geração mais jovem da Colômbia não tem mais nada a oferecer em termos de boa literatura”.

O seu pai insistiu que ele estudasse Direito, mas ele saiu da faculdade, entediado, e dedicou-se ao jornalismo. O salário era atroz, e García Márquez lembrou que sua mãe comentou certa vez durante uma visita a Bogotá que diante de sua aparência suja pensou que ele era um mendigo.

A escrita de García Márquez foi constantemente marcada por seus pontos de vista políticos de esquerda, eles mesmos forjados em grande parte por um massacre de trabalhadores bananeiros em greve em 1928, perto da cidade de Aracataca. Duas décadas depois, ele foi muito influenciado pelo assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, um candidato presidencial de esquerda.

García Márquez sofreu uma forte retaliação por parte dos governantes após lançar o livro “Relato de um Náufrago”. A ditadura tomou o poder e García Márquez buscou um novo lar na Europa. Depois de visitar o leste controlado pelos soviéticos, mudou-se para Roma em 1955 para estudar Cinema, um paixão que sempre o acompanhou. Em seguida, mudou-se para Paris, onde viveu entre os intelectuais e artistas exilados de muitas ditaduras latino-americanas da época.

García Márquez voltou à Colômbia em 1958 para casar-se com Mercedes Barcha, uma vizinha de infância. Eles tiveram dois filhos, Rodrigo, um diretor de cinema, e Gonzalo, um designer gráfico.

Em 1981, entrou em conflito com o governo da Colômbia, que o acusou de simpatizar com o grupo rebelde M-19 e enviar ajuda financeira a um grupo guerrilheiro venezuelano. García Márquez mudou-se para a Cidade do México, sua principal casa para o resto de sua vida.

Apesar de ter tido seu visto negado para os Estados Unidos durante a sua militância política, ele foi elogiado por presidentes e reis, e colecionou amigos como François Mitterrand e Bill Clinton, a quem defendeu da perseguição política após o escândalo das aventuras sexuais com Monica Lewinsky.

O próprio Clinton lembrou em uma entrevista à AP em 2007 que durante a sua faculdade de Direito não conseguia largar o livro “Cem Anos de Solidão”, nem mesmo durante as aulas.

“Eu percebi que este homem havia imaginado algo que parecia uma fantasia, mas era profundamente verdadeiro e sábio”, disse o ex-presidente.

Da infância pobre até as dificuldades da vida adulta, García Márquez transformou-se um pouco mais tarde por conta de sua fama e riqueza. Um bom vivant, com uma personalidade travessa, o escritor sempre foi um animado anfitrião que gostava de contar longas histórias para os seus convidados. Ferozmente protetor de sua imagem, uma característica compartilhada por sua esposa, ele ocasionalmente desencadeava um temperamento explosivo quando se sentia desprezados ou mal representado pela imprensa.

O autor passou mais tempo na Colômbia em seus últimos anos, frequentando o Instituto de Jornalismo da cidade portuária de Cartagena, onde mantinha uma casa.

García Márquez recusou ofertas de postos diplomáticos e desprezou diversos convites para concorrer à presidência da Colômbia, embora tenha se envolvido nos esforços pela paz entre o governo da Colômbia e os rebeldes de esquerda.

Em 1998, já aos 70 anos, García Márquez realizou um antigo sonho de sua vida: a compra de uma participação majoritária na revista colombiana Cambio com o dinheiro do seu Nobel. Antes de adoecer com câ,ncer linfático em junho de 1999, o autor contribuiu maciçamente para a revista.

“Eu sou um jornalista, eu sempre fui um jornalista”, disse ele à AP na época. “Meus livros não poderiam ter sido escritos se eu não fosse um jornalista, porque todo o material foi retirado da realidade.”

Nos anos posteriores, surgiram vários rumores sobre problemas de memória do autor, que não foram confirmados publicamente. Por consequência, suas aparições públicas eram cada vez mais limitadas, apesar de continuar recebendo seus amigos em casa.

Quando ele completou 87 anos, em março deste ano, foi homenageado por jornalistas e fãs que levaram um bolo e flores à porta de sua casa, na cidade do México. García Márquez não deu entrevistas no evento.