Nas páginas da Tribuna do Paraná, a notícia quase passou despercebida pelos leitores: a resolução de um crime, o assassinato de uma mulher de 93 anos, com presos apresentados à imprensa no “paredão” da DHPP, a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (não vamos dar mais detalhes sobre as prisões, pra não darmos spoiler). Mas, nas mãos do jovem escritor Guilherme Carraro, 21 anos, toda essa investigação virou livro policial ao estilo Agatha Christie, que Guilherme batizou de O Formigueiro.

A diferença entre os dois autores é que os romances policiais da escritora inglesa são ficção. Já O Formigueiro relata um assassinato real, ocorrido no dia 5 de setembro de 2017, num apartamento no Centro de Curitiba. Na narrativa, aos poucos Guilherme constrói cada um dos personagens envolvidos e a investigação policial. A cada parágrafo, o leitor passa a desconfiar de um suspeito diferente. Mas, assim como nos livros de Agatha Christie, ou do escocês Arthur Conan Doyle, famoso por ser o criados das aventuras de Sherlock Holmes, o final surpreende; não é nada daquilo que o leitor desconfiava ao longo da leitura.

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Guilherme formou-se em Jornalismo em abril deste ano, pela Universidade Positivo. Como sempre gostou muito de filmes policiais e autores como Conan Doyle e o americano F. Scott Fitzgerald, pensou em escrever uma obra de jornalismo literário como conclusão de curso. Porém, diferente dos seus autores prediletos, optou pela não-ficção. “Eu queria dar o viés jornalístico, mostrar que, muitas vezes, a realidade é mais estranha que a ficção. Embora a gente ache Agatha um entretenimento, queria mostrar que os crimes do cotidiano afetam a sociedade em várias camadas. Ele não acaba quando muda o canal da TV ou a gente fecha as aspas de um texto no computador. O crime continua com os familiares, os vizinhos, os amigos”, analisa o escritor estreante.

Guilherme já estava na faculdade quando conheceu as obras do escritor e músico norueguês Jo Nesbo. Foi com ele que o estudante de Jornalismo aprimorou a técnica de descrever as cenas e personagens, para que o leitor consiga sentir-se dentro da cena. Para isto, ele conversou com a equipe da DHPP sobre seu projeto e conseguiu acesso às cenas de câmeras de segurança obtidas pela polícia, visitou vários ambientes e conversou pessoalmente com vários investigados e policiais.

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Para produzir a obra, o autor se inspirou em grandes nomes da literatura policial, como Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná
Para produzir a obra, o autor se inspirou em grandes nomes da literatura policial, como Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Dentro da história real

Os nomes da vítima, autores, familiares e demais envolvidos na investigação foram substituídos. Já os nomes dos policiais foram mantidos na obra. Um deles é o delegado Cássio Conceição. Para ele, a carreira e a profissão policial é extenuante. Porém, é muito gratificante para o policial e revigorante para a família ver a solução de um caso e, ainda mais, todo o trabalho descrito em um livro.

Na narrativa, Cássio é mostrado como um delegado incomodado pela demora em solucionar o crime, que cobra os investigadores e solicita novas diligências a todo instante. “Mas isso eu me cobro em todos os casos. O que mais incomoda um policial é não conseguir solucionar um caso”, diz ele, que afirma que, no início, já desconfiou do autor do homicídio. E, ao final, também não lhe impressionou a forma dissimulada como este investigado agiu durante todo o processo, não demonstrava nenhum nervosismo nos interrogatórios. E ainda continuou negando o crime, mesmo depois que a polícia descobriu a autoria e mostrou as provas.

Os investigadores Andrius Wuicik, Ana Claudia Moro e Solenise Leal também são citados na obra. Andrius confirma que, assim como nos livros da escritora britânica, o final da investigação teve reviravoltas e revelações. “A maioria dos crimes a autoria é mais previsível. Mas neste caso, depois de investigar várias pessoas, só no final confirmamos de fato quem era”, contou o investigador, que diz que é muito gratificante ver seu trabalho num livro.

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Trabalho em equipe

Nos livros de Agatha Christie, havia dois investigadores emblemáticos: os detetives Hercule Poirot e Miss Marple. Já nas obras do Sir Conan Doyle, o personagem, amplamente conhecido ao redor do mundo, era Sherlock Holmes. Eles apareciam em praticamente todas as obras de seus respectivos escritores.

Já em seu livro O Formigueiro, Guilherme preferiu não ter um investigador “fixo”. “Quando comecei a trabalhar neste projeto, eu não tinha noção de como era exatamente uma investigação policial. Depois, quando vi que não era só uma pessoa a trabalhar num caso, quis explorar esse senso de equipe, trazer a realidade. A ideia não é mostrar um principal, mas que todos juntos formam um Hercule Poirot ou um Sherlock”, explica o jornalista.

Guilherme lança o seu livro, nesta quarta-feira (16), na livraria Arte e Letra (Rua Desembargador Motta, 2011), às 18h30, e também no dia 27 de novembro na Livraria da Vila (Shopping Pátio Batel), das 18h30 às 21h30. O livro tem 104 páginas e será vendido a R$ 30. A obra pode ser encontrada na Amazon e na Chiado Books.

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