Ainda não será desta vez que Renata Almeida vai fazer a Mostra enxuta com que sonha. Seu ideal seriam cerca de 200 filmes, para dar ao público a possibilidade de uma escolha mais serrada. Mesmo assistindo a quatro/cinco filmes por dia, durante as duas semanas do evento, nem o mais turbinado dos cinéfilos consegue ver mais de 60 títulos – ou 70, exagerando. Mas o perfil de maratona faz parte das tradições da Mostra, e a 37.ª edição terá quase o dobro do sonhado pela diretora artística Renata – 379. Só nacionais, serão 80.

Do ponto de vista de Renata, a realização da Mostra pode-se resumir numa palavra – desafio. Durante anos, como fiel escudeira de Leon Cakoff, ela foi imprimindo sua marca, participando das decisões. Mas, agora, é a sra. Mostra, e não é brincadeira colocar de pé um festival de cinema tão grande. São necessários apoiadores, conselheiros, patrocinadores, mas, no limite, é o olhar dela, a decisão dela, que conta. Do ponto de vista do espectador, do cinéfilo, a palavra definidora talvez seja dúvida, ou indecisão. Como escolher, entre tanta oferta, o que ver?

A Mostra começa nesta quinta-feira, 17, para convidados, com Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen. A partir de amanhã, 18 – e em 28 locais de exibição pela cidade -, o público vai ter de escolher. Competição de novos diretores, perspectivas do cinema mundial, apresentações especiais, retrospectivas, Mostra Brasil. Você vai poder ver muitas novidades – os novos filmes de Jia Zhang-ke, Tsai Ming-liang e Amos Gitai, todos amigos da Mostra. Mas como resistir às retrospectivas de Stanley Kubrick, Lav Diaz, Eduardo Coutinho e Yasujiro Ozu? Como deixar de prestigiar a janela que a Mostra abre sobre a obra de outro (velho) amigo, Manoel de Oliveira, com a exposição no Museu Tomie Ohtake?

Há um filme de Lav Diaz que dura 11 horas, Evolução de Uma Família Filipina. Para vê-lo, você gastará um dia útil inteiro, mas como resistir a essa oportunidade rara, senão única? No lounge montado no anexo do Espaço Augusta, você também poderá participar de encontros e debates. Quando você terá outra oportunidade de debater O Sol por Testemunha, de René Clément, com um erudito como o crítico francês Michel Ciment? De novo, a dúvida – para ver o debate, você estará perdendo algum filme, quem sabe o filme de sua vida, o filme da Mostra deste ano?

Na verdade, é tudo isso que faz a excitação da Mostra. Nestes 37 anos, nunca é demais lembrar que o evento – e seu criador, Leon Cakoff – enfrentaram a censura do regime militar e a do próprio mercado, provando que há, sim, público interessado no cinema autoral, e de arte. No geral, é preciso um recuo de tempo para poder dizer com certeza se tal novo filme vai mesmo marcar o cinema. As retrospectivas e apresentações especiais são outra coisa. Escolha seu Kubrick, que pode ser Doutor Fantástico, 2001 e. por que não?. Barry Lindon. A viúva de Kubrick, Christiane, não só estará hoje na abertura para convidados – com o filme dos Coen -, como forneceu a aquarela que, animada, virou a vinheta de 2013. Só amanhã – no dia em que a Mostra decola para o público -, você poderá (re)ver A Rotina Tem Seu Encanto, de Ozu, e o segundo maior filme de Alain Resnais, sendo o primeiro (sempre), para o repórter, Hiroshima, Meu Amor. Esse segundo é Providence, que, como a obra-prima de Ozu, passa em versão restaurada.

E ainda sobre Ozu, a Mostra traz o remake de Era Uma Vez em Tóquio, que virou Uma Família em Tóquio, de Yoji Yamada. Preparado(a)? A maratona de cinema (re)começa.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.