Filmes com temáticas religiosas são uma faca de dois gumes. Por abordar questões de foro íntimo e que geram diversas discussões, quem decide produzir uma obra sobre tal assunto deve estar preparado para uma saraivada de críticas. Para ilustrar esta situação, podemos usar dois exemplos. A última tentação de Cristo, do diretor Martin Scorcese, foi duramente criticado por cristãos fanáticos que não aceitaram ver o lado mais humano de Cristo se sobrepondo ao divino. A Paixão de Cristo, do polêmico Mel Gibson, agradou os mesmos cristãos por reproduzir, segundo eles com autenticidade bíblica, os últimos momentos do Messias encarnado. Todavia, menções ao anti-semitismo geraram protestos mundo afora.

Diante destas e de outras situações, foi com certo receio que recebi o filme Nosso lar, dirigido por Wagner de Assis (A cartomante). Baseado em uma obra homônima psicografada pelo médium Chico Xavier, a partir de relatos do espírito do médico André Luiz, acreditei que veríamos na projeção um trabalho para tentar converter os espectadores ao Espiritismo. Contudo, qual não foi minha surpresa ao ver que, por trás de uma obra inspirada claramente na doutrina espírita, o que move o longa-metragem é algo comum a espíritas, católicos, evangélicos, muçulmanos, ateus, entre outros credos: a busca pela redenção e sobre a vida após a morte. Durante a projeção, conhecemos um pouco mais quem era e quem se tornou o espírito André Luiz. Do seu início arrogante e cético até se converter em uma alma caridosa e crente em Deus, vemos todos os seus medos, sua evolução, a busca pelas respostas, o seu envolvimento com outros espíritos e como ele passa a enxergar a vida (ou morte, se preferirem).

Apesar do início um tanto quanto claudicante, com o insistente uso de flashbacks mostrando o médico em vida e no período em que esteve no umbral (descrito como uma espécie de purgatório), o filme vai pegando ritmo com o decorrer do tempo, tornando-se instigante, fazendo com que a gente se envolva com a história do espírito e tornando-se mais agradável e, para aqueles que não seguem o espiritismo, compreensível.

Em que pese suas qualidades, como a produção visual que é um dos destaques, infelizmente há alguns defeitos no decorrer da projeção. Os diálogos não soam de maneira natural, dando a impressão, em alguns momentos, que robôs estão falando. Algumas subtramas, como a de Amélia, que fora paciente em vida de André Luiz, são desnecessárias e, pior, sem explicação alguma sobre o seu destino.

Independente da sua opção religiosa, assistir Nosso Lar é uma experiência interessante por mostrar que todos podem ter uma segunda chance, se tornar alguém melhor e refletir sobre alguns atos que tomamos em vida.