Duas da madrugada. O uísque, no fundo do copo, é um espelho líquido onde a imaginação se debruça, cansada. O tédio, uma serpente volátil serpenteando no ar, um zumbido surdo de moscas invisíveis. A meia-luz colorida da boate, esverdeada aqui, amarelada ali, avermelhada mais além, vai encobrindo as mesas como um lençol incorpóreo. Há um sussurro de vozes indistintas e risos abafados. De quando em quando, eleva-se uma voz mais forte, ilha sonora num arquipélago de sons confusos. Homens e mulheres espalham-se pelo salão cheio de espelhos e dourados, com pretensões rococó. O ar parece recender a suor misturado com perfumes baratos. Uns e outros, sós. Sós apesar das palavras que os ligam como pontes sem pilares, suspensas no vácuo. Uns, em busca de uma fuga ainda possível ao drama do quotidiano, à dureza dos dias que arrastam, monótonos, inconseqüentes e vazios. As outras, atrás do dinheiro, do vil metal que às vezes mata a fome dos filhos, ou sustenta o luxo e o ócio da madame. Uns procurando, na fugaz alienação do álcool e da presença feminina, o remédio precário para a realidade de estarem vivos, mas vivendo uma vida que é véspera de morte.

As outras, mercenárias ou necessitadas, usando, com as máscaras afiveladas aos rostos, não pintados, mas sarapintados, a arte de seduzir e fingir. De fingir até mesmo quando fingem que sentem aquilo que estão sentindo realmente. Mesmo que nunca tenham lido Fernando Pessoa, o grande fingidor.

O pequeno conjunto musical espalha na atmosfera saturada de fumo e vapores vagamente etílicos, ou uisquiais, as notas graves, melancólicas, de um samba-canção. Um cantor de ébano, voz rouca e nostálgica, começa a cantar versos que alguns não entendem e outros gostariam de não ouvir nesse momento de evasão, esquecidos da verdade das palavras duras, ditas com ternura de cetim e mansidão de pombas…

“Tristeza, não tem fim,

felicidade, sim…

E a voz do cantor vai se dissolvendo no ar, vai se espreguiçando, carícia e punhalada, quebranto e afago, vai se derretendo, liquefeita, nos copos quase vazios, vai me envolvendo todo com seu véu incolor, transparente, translúcido, construído de coisas sem forma, de farrapos esgarçados de sonhos, vai me dominando, vai me vencendo, lentamente, indistintamente, enevoadamente.

Alguém, uma voz sem rosto, impessoal, pergunta se falta muito para começar o show. Digo que não sei. Não me interessa. Muito menos me importa. Outra voz, de mulher, algo roufenha, diz que está quase na hora. Pela conversa da mesa ao lado fico sabendo que se trata de um quadro em que se destaca um nome que não entendi, a “strip teaser”. Agora, um apresentador estridente vem ao microfone para anunciar o início do espetáculo. Que se intitula “Uma noite no circo”. Deve ser uma droga. Enfim, vejamos. Rufam os tambores e as artistas, uma a uma, vão desfilando na arena, improvisada, com passos pretensamente marciais que a música medíocre acompanha como pode. Querem parecer provocantes e sensuais e são apenas lamentáveis e ridículas. Primeiro vem a equilibrista, cabelos ruivos e faces maceradas, embora não tenha mais de dezenove ou vinte anos. Depois a trapezista, a palhaça, a contorcionista, a domadora de cobras, a ilusionista. Um festival repugnante de carnes flácidas. De carnes torpes, obscenas, “ex-libris” do pecado. Rostos marcados, indelevelmente marcados pelas cicatrizes da vida, mais que do tempo. Tudo isto me enoja. Não, não… Talvez não seja nojo esta sensação que me invade, nauseante, com seus tentáculos pegajosos, mas apenas tristeza, uma estranha espécie de tristeza, enlanguescedora, emoliente. Que dá vontade de chorar, de chorar baixinho, de chorar para sempre, eternamente, sem querer saber a razão por que se chora ou por que existe pranto na terra dos homens.

Peço mais um uísque. (É o quarto ou o quinto? Esqueci – ou não quero lembrar.) O show vai prosseguindo. Agora é a vez do quadro que se intitula “A professora e o aluno”. Mas não está certa a designação. Ficaria melhor se fosse – “a mestra suja e o pederasta idem”. Uma sucessão interminável de palavras equívocas e obscenidades transparentes, cruas, que a platéia aplaude com frenesi. Não presto atenção. Não quero prestar atenção a tantas expressões abjetas vestindo piadas de humor discutível. O uísque é um bálsamo refrescante sobre a chaga dolorida do instante que passa. Procuro afundar-me mais e mais nas águas mansas da lagoa azul do esquecimento, tento mordiscar os resíduos do nada, perambulando, por instantes, no reino noturno e saboroso do olvido. Palmas frenéticas trazem-me de novo ao país do real. Mas o que é realidade? Quais os seus contornos, seu perfil, sua essência? Em que edifício onírico habita ela?

A “aula” de alfabetização de adultos acabou, felizmente. Já vai tarde. Aqui e ali, um bocejo irreprimível nas bocas sujas de batom ou tabaco. O ar, espesso de fumo, está quase irrespirável. Alguém tosse fortemente, evidenciando um catarro talvez galopante, que nada augura de bom. O locutor anuncia agora o número da “strip teaser”. Por curiosidade, apenas, presto atenção. As luzes apagam-se. A escuridão é completa.

Envolta num vestido prateado que lhe cobre o corpo bem torneado e deixa adivinhar as suas curvas, itinerário de volúpia, ela surge no palco, indistinta dentro das trevas quase absolutas. Um refletor acende-se. Agora a ” strip teaser” é inteiramente visível. Apesar da distância a que me encontro, ela tem um rosto cujos traços surpreendem pela beleza incomum. Um rosto angelical. Um rosto que tem qualquer coisa que me lembra alguém… Rosaura? Não é possível. É o rosto exato, perfeito, de Rosaura. Devo estar enxergando mal. Ou sonhando, talvez. Agitado, levanto-me. Peço a uma dona de face depravada, sentada à minha frente, que troque de lugar comigo, para eu ver melhor. Acede, de mau modo. Mas eu não ligo. Estou concentrado inteiramente no rosto de Rosaura. Mas Rosaura, revivida dentro de mim por instantes mágicos, está morta. Mortos os seus olhos que me fitaram outrora, tantas vezes, com ternura infinita, e em cujo azul marítimo tantas vezes mergulhei os meus. Mortas, desfeitas, apodrecidas as mãos que enlançaram as minhas, num antigamente que parece agora. Mortos os cabelos louros, cascata de luz onde os meus dedos se iluminavam. Mortos os lábios de cereja. Morta a voz que era música das esferas ressoando em meus ouvidos. Morta a minha doce e gentil Rosaura. Morta para sempre. Levanto-me, alucinado. Não posso mais olhar o vulto da “strip teaser” que, lentamente, uma a uma, com movimentos eróticos de pantera no cio, se vai despojando de todas as peças do vestuário. Estremeço, febril. Ao lado, a voz de alguém que eu conheço, companheiro de empresa, murmura aos meus ouvidos: o que é que você tem, Arnaldo? Não respondo. Sinto que a memória de Rosaura está sendo profanada, vilipendiada. O álcool turva-me a vista. E não consigo evitar um grito. Um grito rouco. Um grito que é feito da saudade de Rosaura, da saudade do rosto de Rosaura, das suas mãos de anjo que me foi arrebatado tão cedo para as alturas:

– Basta, prostituta!

Há um rebuliço dos diabos dentro da boate. Dois leões de chácara, enormes como postes, põem-me para fora, com violência. Levo algumas bofetadas na cara. Um murro mais forte nos dentes. Passo a mão nos lábios. Estão sangrando. Mas eu nada sinto, alheado do mundo que me rodeia. Por alguns instantes, Rosaura, morta há vinte anos (sim, vinte anos, uma eternidade que me fez os cabelos todos brancos) viveu dentro de mim, luminosa e frágil, enchendo-me a alma com a sua presença etérea que se foi e que eu amei como jamais voltei a amar, durante todos estes anos sem fim.

Olho o relógio. Já passa das quatro. Não sei por que, mas tenho lágrimas nos olhos. Lágrimas doces. Elevo o olhar para o céu estrelado. Um carro passa, veloz, no asfalto molhado da avenida deserta. A noite é uma orquídea negra que já vai murchando…

João Manuel Simões

é escritor, membro da Academia Paranaense de Letras.