JJ Liddy já não é mais criança, mas ainda não virou adulto. E, como todo adolescente, ele se sente um patinho feito, sem caber no próprio corpo, sem achar seu lugar no mundo, sem saber muito bem o que vai ser quando crescer. A sensação de ?não pertencimento? típica dos jovens fica ainda mais forte para JJ quando, numa discussão banal, um amigo de escola diz que os Liddy são mal vistos por toda a população de Kinvara, a pequena cidade irlandesa onde moram. O clã é maldito, garante o colega, porque, no passado, o avô de JJ, que tinha o mesmo nome que ele, foi acusado pelo assassinato de um padre.

Esse é o mote de JJ e a música do tempo, livro da escritora Kate Thompson. Considerada uma das maiores autoras juvenis da atualidade, Thompson mistura fantasia, mistério e história para criar uma aventura em que o protagonista viaja no tempo e no espaço para descobrir um pouco mais sobre si mesmo, sobre os outros, sobre a música e sobre o tempo.

É a música, o grande mote da história. Não por acaso, cada capítulo do livro termina com uma partitura de uma canção típica do folclore irlandês, pronta para ser executada. Amuado com as acusações contra seu antepassado, JJ volta para a fazenda onde vive com o pai, Ciaran, a mãe, Helen, e a irmã caçula, Marian. Helen, que ostenta o sobrenome Liddy, é a pessoa da família com quem o menino mais se identifica. Alheia à maledicência e considerada a maior queijeira da região, ela explica ao filho que a razão do suposto desaparecimento do padre, um homem conservador que odiava música e dança, foi uma flauta mágica que estava em poder do seu avô. Uma briga com o velho JJ, seguida do desaparecimento do religioso, foram motivos suficientes para o povo de Kinvara considerar que o pai de Helen e avô de JJ tinha matado seu adversário.

O clã dos Liddy sempre se dedicou ao ensino da música e das danças típicas da região. os bailes dados pela família fizeram parte da história de Kinvara. Ao começar a investigar as acusações que pesam sobre seu avô, JJ dá de cara com razões muito mais complexas do que imaginava para o preconceito contra seus parentes. E acaba descobrindo muito sobre si mesmo e sobre a falta de tempo que aflige todos nós, moradores de Kinvara ou de qualquer outro lugar no mundo.

Dona de uma narrativa sofisticada, muitas vezes rara em livros juvenis da atualidade, Kate Thompson alterna a aventura de JJ com a apresentação da rotina de Larry O? Dwyer, o novo policial do povoado. Cabe a ele fazer a ronda dos pubs e boates para ver se todos os bailes e shows acabam na hora certa. Cabe a ele, também, reprimir toda e qualquer manifestação musical que não esteja prevista dentro da lei. Mas Dwyer, como o leitor percebe rapidamente, é uma figura ambígua: o novo policial adora música.

Também são contraditórias as versões sobre o passado dos Liddy e da vizinhança. O reaparecimento da flauta mágica faz com que JJ viaje para um mundo fantástico. Em Tir na n?Óg, a terra da eterna juventude, ele toma contato com uma nova noção de tempo e passa a viver entre dois mundos paralelos. Nesta viagem no tempo, JJ descobre que a música é uma escrita universal, compreendida da mesma forma em todas as partes do mundo, e que pode ser a causa de todo o estranhamento contra sua família.

Sucesso de crítica e público, o premiado livro de fantasia de Kate Thompson, considerada uma das maiores escritoras juvenis da atualidade, é lançado pela editora nova fronteira.