A crise pode não ser agradável para quem a vive, mas dela se pode extrair criatividade e força de inovação. Foi o que fez a nova geração do cinema argentino, que tem como um dos expoentes a diretora Lucrecia Martel, de O Pântano. Chega agora ao Brasil o novo longa-metragem da cineasta, o também inquietante A menina santa, filme que andou passeando por festivais europeus, depois de Lucrecia já ter firmado reputação com O Pântano.

São Paulo (AE) – Hoje em dia as grifes são prematuras e efêmeras. Todo mundo fica famoso muito cedo e deixa de sê-lo de uma hora para outra. Mas Lucrecia não parece um fenômeno passageiro. Tem estilo, como se comprova por esse novo longa-metragem. Nele, encontramos, as figuras meio escabrosas de adultos às voltas com suas fraquezas e instintos sexuais que não conseguem administrar. Também, em contato com esses adultos, alguns jovens adolescentes, que às vezes fornecem o contraponto da mocidade aos homens e mulheres maduros que, compreensivelmente, não se apresentam como modelos acabados da virtude.

Há aí uma questão de gerações. Embora não seja exatamente uma jovem (tem 39 anos), Lucrecia mantém uma relação inevitavelmente tensa com a geração que legou à sua geração a Argentina problemática de hoje. Regime militar, corrupção, Menem guerra das Malvinas, a lista é longa. Não se trata de um saldo exatamente positivo. Acontece que, nos filmes de Lucrecia, os jovens também não são nada exemplares. Longe disso.

No caso de A Menina Santa as cenas acontecem num velho hotel onde tem lugar um congresso médico, de otorrinolaringologia exatamente, ao mesmo tempo em que meninas religiosas se reúnem. Há um médico, Jano, que, durante um concerto ao ar livre, se encosta na menina que poderia ser sua filha, ou neta. Ela percebe, e sente um misto de desejo e revolta. Sentimentos ambíguos, expressos na tela pelo olhar da garota. A partir de então, ela tentará ?salvar? a alma desse pecador, o dr. Jano que, nome que na mitologia romana, convém lembrar, designava o deus de duas faces opostas.

Não é tanto a temática que impressiona nos filmes de Lucrecia Martel, mas a maneira como ela imprime seu estilo naquilo que filma. Em O Pântano, há uma impressão de imobilidade de estagnação, naquelas famílias que se espreguiçam e bebem sem parar em torno de uma piscina de águas turvas. Em A menina santa são as relações humanas que parecem viciosas. Não se conhece a psicologia daqueles personagens. Não se sabe como foram parar ali, quem são, qual é a história deles. Eles existem na objetividade da filmagem, como modelos, no sentido que lhes dava Bresson, como esvaziados de qualquer causalidade interna. São o que são, alheios a si mesmos.

Vendo o filme, não se pode deixar de sentir a sensação de imobilismo da sociedade argentina, com seus seres perdidos e aparentemente sem objetivo. Há como uma demonstração ilustrativa das taras e deformidades ali presentes. Nos médicos, que exercem seu ofício sem nenhuma paixão, com um sentido ético já esgarçado ou extinto. Os funcionários do hotel conduzem-se burocraticamente, como se tudo aquilo que lá acontece não fosse com eles. E as religiosas não têm mais fé do que os outros personagens. Enfim, é uma história da fé, sem nenhum sentido mais profundo da fé. A religião, aqui, não ilumina e nem consola. Produz apenas culpa e repressão inúteis.

O cinema de Lucrecia Martel, selvagemente inovador, parece indicar justamente isso, a anomia, a perda de sentido e de paixão no mundo em que vive. Sai-se do cinema com essa difusa e pesada impressão. E a certeza de ter visto um filme invulgar, de alguém que, neste mundo uniformizado, ainda consegue imprimir a marca de um estilo próprio.

Serviço:

A Menina Santa (La Niña Santa) – Dir. Lucrecia Martel. 14 anos. HSBC Belas Artes-V.Lobos – 15h30, 17h30, 19h30, 21h30. Reserva Cultural 2 – 15h, 17h10, 19h20, 21h30. Sala UOL – 14h, 16h, 18h, 20h, 22h. Unibanco Arteplex 4 – 13h30, 15h30, 17h40, 19h50, 22h (sáb. também 0h). Cotação: Bom.