Hans Donner: “Nunca encostei
em computador. Meu negócio
é lápis e papel”.

Na sala de Hans Donner no prédio da Globo, no Jardim Botânico, no Rio, não existe computador. No mínimo, um paradoxo para quem é considerado o “mago dos efeitos especiais”.

“Nunca encostei em computador. Meu negócio é lápis e papel”, assume. Há 27 anos criando aberturas, vinhetas e logotipos para a Globo, é impossível deixar de notar a presença do designer na programação da emissora. A começar pela logomarca global. A primeira criação de Hans para a Globo está na frota de carros, microfones, releases, vinhetas e na marca d’água no canto do vídeo. “Criei o símbolo num guardanapo de papel, dentro de um avião”, diz o designer de 53 anos, que apesar das quase três décadas de Brasil, não perde o sotaque alemão.

Hans apareceu na Globo em um momento estratégico. Era 1975 e a emissora estava prestes a completar 10 anos. Um ano depois, iria consolidar as transmissões em cores. Ou seja, Hans era o profissional que a Globo – em expansão – precisava para marcar uma nova etapa reformulando o seu visual. “Se chegasse um ano antes, talvez a Globo nem estivesse pensando em mudanças. Se fosse depois, já teriam colocado outra marca no ar”, reflete Hans.

As criações de Hans para a Globo já ultrapassam as 7.200 horas. Se uma pessoa ficasse quatro horas por dia em frente a uma tevê, iria demorar cinco anos para assistir a tudo que o designer já produziu para a emissora. “O Boni dizia: ‘Hans, gasta! Quero o melhor do mundo'”, recorda, imitando o “ex-manda-chuva” J. B. de Oliveira Sobrinho, que em 97 foi substituído pela prima, bem mais controlada, Marluce Dias da Silva.

P

– Você tem a fama de mago dos efeitos especiais, mas não há computador em sua sala…

R

– Nunca encostei em um computador. Tenho aversão. Nos meus cinco primeiros anos aqui na emissora, inclusive, não havia computado. Na verdade, o computador virou a ferramenta que realizou os meus sonhos de criação. O que aconteceu é que o computador possibilitou a terceira dimensão e o meu design, desde a faculdade, é todo voltado para a terceira dimensão, o volume. Então, foi a união perfeita.

P

– Você arriscaria destacar algumas aberturas?

R

– “Locomotivas”, gravada no Teatro Fênix, foi uma das primeiras e que gosto muito. É incrível, mas muitas pessoas até hoje me falam que lembram daquela moça sendo maquiada e, no final, dando um soco na câmara com uma luva de boxe. Nesta linha tem algumas, como esta de “Desejos de Mulher” e a de “Hilda Furacão”. São simples e sem grandes efeitos especiais, mas requintadas. Em “Barriga de Aluguel”, por exemplo, só coloquei uma luminária no meio das pernas de uma modelo grávida para simbolizar o ato de dar à luz. E todo mundo entendeu.

P

Mas a primeira abertura que você fez para a Globo foi rejeitada…

R

– Foi. Era para a novela “Bravo”, em 1975, também gravada no velho Teatro Fênix. A cena era a seguinte: um piano branco, uma criança de 4 anos com roupa de marinheiro, com o pé nem alcançando o chão. A câmara se aproximava, passava por cima da criancinha e apontava o teclado onde ela tocava a música de abertura. A criança se transformava em um maestro, que era o Júlio Medaglia. O Boni detestou. Jogou no lixo. Minha primeira abertura foi um desastre. Tiveram de improvisar cenas da própria novela num final de semana.

Trajeto obsessivo coma cara e a coragem

Hans Donner nasceu na Alemanha, em Wuppertal-Elberfeld, em 1948, quando a cidade estava destruída pela 2.ª Guerra. Aos dois anos, perdeu o pai. Entre 65 e 70, cursou a secular Hohere Graphische. Em 74, aos 25 anos, viu uma matéria em uma revista alemã sobre designers brasileiros, encafifou que queria vir para o Brasil. Contrariando a família, comprou uma passagem de ida e volta. Em 21 dias, tentaria conseguir emprego, mesmo sem conhecer ninguém, sem falar o português e nunca ter andado de avião. Após ir, em vão, a agências de São Paulo e Rio, conheceu no 20.º dia o redator Arlindo de Castro. Ele levou Hans ao fotógrafo David Drew Zingg, que trabalhava ao lado da Globo, e que o pegou pela mão e entrou na sala de Walter Clark: “Este é o cara que vai mudar o visual da Globo. Aproveite!”. Walter não vacilou: “Tá contratado!”.

Hans voltou à Alemanha para arranjar os papéis que regularizavam sua situação. No período que ficou na Áustria, criou o logotipo da Globo, selos e um filme em 35 mm com animações. Ffoi contratado como free-lancer. Sem licença para trabalhar no Brasil, iria receber pelo estúdio de fotografia em que trabalhava o amigo David. O salário era US$ 30 mil por mês, só que o dinheiro não era repassado para ele, nem os US$ 150 mil da venda da logomarca. “Passei fome e acabei num quarto de empregada em Copacabana. Era inacreditável. O Boni percebeu e me levou para dentro da Globo”, desabafa.

Histórias de um criador

* Hans Donner é responsável pelos logotipos da Som Livre, Editora Globo, Rádio Globo, Globo FM, Fundação Roberto Marinho e RBS. O designer também assina por todo o visual das emissoras Telemontecarlo, em Mônaco, e SIC, em Portugal.

* Na produção da abertura de “Viva o Gordo”, em 82, Hans quase ficou paralítico. Jô Soares se negava a pular de altura de 2 metros na cama elástica, Hans resolveu saltar de uns 5 metros para convencer o apresentador. Resultado: bateu fortemente com o cóccix no chão e quase não levantou mais.

* Na abertura de “Selva de Pedra”, Hans Donner usou 2.800 maquetes, feitas à mão, para imitar o rosto de Toni Ramos. Os prédios surgiam da terra árida e encerrava com uma visão aérea dos prédios que formavam o semblante do galã.

* Só em 83, montou-se a estrutura de computação gráfica da Globo. O primeiro plim-plim, por exemplo, foi feito pelo New York Institute of Technology. Em 81, a Globo ajudou três garotos matemáticos de São Francisco a montarem a PDI, hoje uma das maiores produtoras do ramo. Produziu os efeitos do “O Exterminador do Futuro”, por exemplo. Foi lá que a Globo realizou as vinhetas do “Supercine” e “Jornal Nacional”, além da milionária abertura do “Fantástico” de 83.

* Por duas vezes, Hans usou o nu masculino. Em “Brega & Chique”, Vinícius Manne caminhava nu de costas. Nas Olimpíadas de 92, várias bandeiras se transformavam no modelo Beto Simas despido.