Amigos desde antes que Rodrigo Teixeira virasse produtor, Mauro Lima e ele acalentavam há tempos o projeto de filmar juntos. A primeira ideia foi uma ‘biopic’, um filme biográfico sobre José Mojica Marins, o criador de Zé do Caixão. “Rodrigo marcou uma reunião e disse que tinha uma boa e uma má notícia.

A ruim é que o filme sobre o Marins não ia mais sair e a boa é que ele tinha outras biopic para me propor, sobre Tim Maia.” O diretor de Meu Nome não É Johnny e Reis e Ratos nem precisou pensar. “Topei na hora.” Um pouco (muito?) pelo personagem. Além de admirador do ‘síndico’, Mauro Lima lera a biografia do cantor e compositor por Sérgio Motta. Sabia quão rica e complexa foi sua vida. O outro motivo é excesso pelo produtor. “O Mauro é um diretor vintage.”

Adora um filme de época. Mauro concorda. “É uma coisa que me estimula muito.” Recriar o passado não tão distante, sobre o qual ele tem uma memória visual.

“Adoro imaginar uma cena e pensar que, por exemplo, preciso de um Karmann Ghia para compor o quadro de época.” O visual é importante, e para isso se conjugam setores como fotografia, direção de arte, figurinos. Mas se o personagem é um artista com a discografia de Tim Maia, a seleção das músicas é decisiva. Mauro Lima fez um trabalho acurado de seleção, garimpando as pérolas que Tim Maia compôs e cantou nos anos 1970, que estão no centro do filme. Tudo isso é cuidado, e Tim Maia, o filme, enche os olhos e os ouvidos. Mas os dois aspectos decisivos são o roteiro e a interpretação.

Tim Maia não foi só um encrenqueiro que comprava brigas com Deus e o mundo, incluindo seu público. Numa cena, ele se queixa ao amigo Fábio, narrador de sua história. Diz que tem um milhão de inimigos. Fábio retruca que o milhão não é nada. O maior inimigo de Tim Maia sempre foi… Tim Maia. Neste sentido, a dramaturgias do filme beira o exasperante. Tim Maia não é um personagem simpático. Pelo roteiro de Tim Maia, o filme, ele se empenhou em dificultar a vida dos que o amavam – dos que queriam amá-lo. Um personagem assim é difícil. E tem o fato de ser muito conhecido, com sua robustez física e vocal. Para criar seu Tim Maia, Mauro Lima precisava de um ator especial. Você pode imaginar que ele sofreu pressão para contratar aquele que fez o musical, vamos deixá-lo em paz. Desde que começou a pensar no Tim Maia que queria colocar na tela, Lima foi eliminando e rapidamente chegou a… Babu Santana.

Muita gente se espantava quando ele falava no ator de Estômago, de Marcos Jorge, entre outros filmes que esculpiram a persona de ator de Babu. Negro, feio – a definição é do próprio Babu -, ele foi muitas vezes perfeito como coadjuvante. Mas protagonista? E de um personagem como Tim Maia? Você pode duvidar de muita coisa antes de ver o filme. Pode, eventualmente, não gostar de outras tantas, depois. Mas a riqueza musical e a da interpretação de Babu Santana não estão em discussão. São ‘intocáveis’. O próprio partido narrativo de Tim Maia – O Filme foge ao óbvio. “A gente pensa que sabe tudo sobre ele, mas não. Tim Maia deixou uma imagem muito forte no nosso imaginário. Eu pensei em alguma coisa que fugisse ao óbvio. Quis mostrar o Tim Maia com a câmera desligada, aquele que nunca vimos antes.”

Isso significa escavar, em sua biografia, episódios da fase americana. Sebastião Maia, antes de virar Tim Maia, morou e foi preso nos EUA. “O Tim teve uma vida com vocação para virar filme. Foi o que pensei quando o Rodrigo (Teixeira) me propôs o personagem. Roubou carro, foi preso, teve todas aquelas histórias de envolvimentos com drogas, com mulheres. Teve a fase mística, de obsessão pela cultura racional. Teve altos e baixos. Renasceu, até financeiramente, com o Tim Maia Disco Club. Muita coisa ficou de fora porque um só filme não daria conta de tudo. Eu ia precisar de uma minissérie.” De cara, Mauro Lima decidiu que teria uma narração em off. “Para um filme de época é importante. Ajud,a a dar credibilidade.” Mas ele também descartou que o próprio Tim contasse sua história. “Iam achar que eu estava psicografando”, brinca. No material de pesquisa, Mauro Lima localizou o livro do amigo Fábio. Decidiu que ele seria o narrador.

Fábio acompanha Sebastião no começo da carreira, antes de virar Tim. Segue-o nos anos difíceis e, depois, na glória e na decadência. A história se confunde com a de outros ícones da MPB. O notório cafajeste Carlos Imperial e o futuro rei Roberto Carlos. Roberto, tão cioso de sua imagem que foi à Justiça para impedir a publicação de uma biografia não autorizada, recebeu o roteiro e não fez objeção ao recorte de Mauro Lima. De qualquer maneira, é outro personagem que não é muito simpático. O Roberto de Tim Maia quer ser astro e faz de tudo para isso. Mesquinho, ao chegar no auge, afasta-se dos companheiros do início de sua jornada, entre eles Tim Maia, com quem integrava a banda The Sputniks, no bairro carioca da Tijuca.

O diretor não acredita que esse recorte venha lhe causar problemas. “O filme é uma ficção, mas nada disso saiu da minha cabeça. Está documentado no livro de Nelson Motta.” Outros episódios também estão no livro, mas Lima os aborda do seu jeito. A personagem de Alinne Moraes é feita da junção de duas mulheres de Tim Maia no livro. Alinne fotografava muito bem como personagem de época. Mauro Lima confessa que, lá atrás, quando Rodrigo Teixeira e ele começaram a montagem do elenco, a foto de Alinne já estava colada ao nome de ‘Janaína’. Só bem depois disso, há dois anos, Alinne e Lima casaram-se (e tem um bebê).

Para mostrar o Tim Maia distante das câmeras, Lima teve uma colaboração valiosa. O filho de Tim, Carmelo Maia, deu todo apoio e até faz o jornalista que entrevista seu pai. “Existem coisas que são públicas, mas como mostrar o Tim Maia em casa, no café da manhã? Ninguém nunca registrou isso. O Carmelo me foi muito valioso nesse sentido. Me revelou o Tim Maia que ninguém conhecia, e que era o que me interessava.” Tim Maia – O Filme mal estreou (ontem) e o diretor ‘vintage’ já sonha com outras biopics. Mauro Lima gostaria muito de biografar o bailarino Lennie Dale, cujo comportamento libertário – expresso numa certa entrevista no antigo Pasquim – ultrajou a censura do regime militar. Mas, antes disso, ele embarca na história do lendário Mariel Mariscot, policial com ligações nos porões da ditadura e que teve uma intensa ligação com a não menos lendária Darlene Glória. Um filme com essa dupla promete. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.