Bezerra, como o “meu bom juiz”:
conhecimento da lei.

O rei da malandragem está de volta, e na maior “beca”. O pernambucano mais carioca do mundo, Bezerra da Silva (75 anos segundo o registro de nascimento), acaba de lançar pelo selo Cid o disco ao vivo Meu Bom Juiz, onde faz o que melhor sabe: dá vida a pérolas do partido alto, passeando com desenvoltura por letras malandras e irreverentes, sempre na maior elegância.

“Cresci no morro do Cantagalo, conheço o melhor e o pior da favela”, explica o mestre, que chegou no Rio aos 15 anos, descalço e com fome. Seu 28.º disco reúne treze sucessos da sua carreira de 34 anos, e outras três músicas que jamais tinham sido gravadas anteriormente pelo bom malandro – Bem Melhor que Você (Neguinho da Beija-Flor), Notícia (Nélson Cavaquinho, Lorival Baía e Alcides Caminha) e Em Seu Lar (Vavá da Portela).

Os arranjos não trazem grandes novidades, o que transforma Meu Bom Juiz na trilha sonora ideal para um bate-papo com os amigos ou uma cervejada no boteco. É como se você estivesse numa mesa ao lado da dos sambistas, e eles fossem percorrendo o melhor do repertório de Bezerra. Até Marcelo D2 participa da festa, na faixa Garrafada do Norte.

O disco começa com a hilária A Semente, de Tião Miranda, Roxinho, Valmir da Purificação e Felipão. A música foi inspirada num matagal “pra lá de suspeito”, que nasceu das sementes de pepino que os quatro bambas jogavam pela janela nas reuniões, e deu origem aos versos “Meu vizinho jogou / Uma semente no seu quintal / De repente brotou / Um tremendo matagal”, e mais adiante “Mas foi pintando sujeira / O patamo estava sempre na jogada / Porque o cheiro era bom / E ali sempre estava uma rapaziada…”.

Em seguida vem a faixa-título, onde Bezerra demonstra todo o conhecimento que adquiriu quando trabalhou como assessor jurídico: “Mas quando alguém se inclina com vontade / Em prol da comunidade / Jamais será marginal / Buscando o jeito de ajudar o pobre / Quem quiser cobrar que cobre / Pra mim isso é muito legal”. Praticamente um habeas corpus para a malandragem. Outra “aula” de Direito aparece em A Fumaça Já Subiu pra Cuca: “Já era amizade / Quem apertou, queimou, já está feito / Se não tiver a prova do flagrante / Nos autos fica sem efeito”.

D2 dá as caras em Garrafada do Norte, que fala de uma certa “planta” que “alegra, inspira, acalma e deixa a moçada de cuca legal”, pois “aquele que perde a cabeça é porque já tem parte com o espírito mau”.

E é só o começo. Em Produto Importado, o malandro canta: “Toda hora eu vendo / Essa mercadoria não é de encalhar / É produto estrangeiro / Que veio importado / Lá de Bogotá”. Por essas e outras, como a célebre “Vou apertar, mas não vou acender agora”, Bezerra parece ser o pai de todos os “malucos”. Ledo engano: “Nunca fumei maconha, nunca cheirei cocaína, e hoje nem cachaça e cigarro eu consumo mais”, garante. “Sou evangélico.”

Calúnia

Ele se irrita com qualquer referência a uma suposta “apologia”. “Se alguém disser que eu faço apologia eu meto um processo por calúnia. Seria até bom, assim eu ganhava algum dinheiro. Agora é só cocaína que vem de Bogotá? E o Rincón, não veio da Colômbia?” Bezerra afirma ainda que jamais teve qualquer problema com a Lei. Prova disso é que já gravou com um delegado sambista, o paranaense Jorge Azor Pinto. “Manda um abraço pro doutor Azor”, pediu.

Mas nem só das polêmicas letras de duplo sentido é feito Meu Bom Juiz. Estão lá outros personagens do imaginário de Bezerra: a sogra sapatão, o “confortável” trem de Belford Roxo, o pai-de-santo 171, o defunto “cagüete”, o ladrão arrependido e outros que integram esse verdadeiro almanaque sonoro da cultura do morro.