Elis Regina teve a carreira
marcada por dois arrependimentos.

Talentosa, inteligente, polêmica e politizada como poucas cantoras brasileiras, mas acima de todas, Elis Regina (1945-1982) teve a carreira marcada por dois arrependimentos célebres. Um deles foi ter sido obrigada a se lançar em disco como concorrente de Celly Campello (1942-2003), com apenas 16 anos de idade, por força de um contrato com a gravadora Continental. O outro foi não ter revelado Chico Buarque, quando o tinha à mão com exclusividade. Esses dois episódios estão entre as curiosidades de Ensaio – Elis Regina, o primeiro DVD da cantora, que a gravadora Trama lançou esta semana em parceria com a TV Cultura e a TeleImage.

Além de grandes canções de compositores com quem mais tinha afinidade – como Gilberto Gil, Baden Powell, Edu Lobo, Milton Nascimento e Tom Jobim -, o programa traz declarações reveladoras de sua personalidade, intransigente no melhor sentido.

Então estreante, Chico foi à casa de Elis indicado por um amigo em comum, João Evangelista, para mostrar suas músicas. Chegando lá, ficou paralisado na frente dela segurando o violão e mudo, olhando para o pé ou para Elis. Depois de uns 15 minutos de mal-estar, ela tomou uma atitude e ele começou a tocar e cantar, gravando as músicas numa fita. Elis o achou muito esquisito. “Ele estava realmente com aquela cara de quiabo malfeito, cara de jiló”, diz. “Pensei que o cara estava me achando um saco.” Imaginando que o tímido compositor não tinha ido com sua cara, Elis não quis gravar nada dele. “Aí perdi a oportunidade de lançar 12 músicas do Chico. A Nara (Leão), claro, lançou antes de mim e está ótima até hoje.”

Faro

Trabalho minucioso de recuperação de imagem e áudio, o DVD, que sai com 100 mil cópias, é o registro da histórica participação de Elis no Ensaio, da Cultura. Produzido e dirigido por Fernando Faro, o programa, que também teve a variante MPB Especial no título quando migrou da Tupi para a Cultura, estreou em 1969 e ainda está no ar. Quando provocada por Faro sobre a primeira gravação, a rumba Dá Sorte, Elis se recusa até a dizer o nome da música para não ter de cantá-la. Abominava o disco de estréia, Viva a Brotolândia (1961), assim como o segundo, Poema (1962), e jamais permitiu que fossem relançados, o que ocorreu só depois de sua morte.

O DVD de Elis é o primeiro de uma série de dez programas Ensaio que a Trama vai produzir com a TeleImage, empresa especializada em restauração de imagens. A Cultura só disponibiliza arquivos. Entre os 20 nomes cotados para os próximos nove lançamentos estão Tom, Toquinho e Vinicius, Caymmi, Nara Leão, Baden Powell, Caetano, Paulinho da Viola, Pixinguinha e Gal.

Para os fãs antigos, é só a confirmação do que já sabiam ser incomparável. Para os novatos, que só ouviram falar dela como a mãe de Maria Rita, uma revelação e tanto de suas fontes.