Por um bom tempo, nos anos 60 e 70, o Brasil admirou um trio de intelectuais que em comum tinham o primeiro nome e difusa identidade ideológica. Os três se chamavam Antônio e ostentavam ficha dos sonhos de qualquer candidato a aventureiro, escritor, jornalista ou intelectual.

Eles atuavam sempre pelo lado esquerdo do campo político. O primeiro, Antônio Cândido, crítico consagrado na academia, embora tivesse mania de encarar textos literários com a frieza de um médico legista, prática que lhe granjeou algozes como Paulo Francis, que bradava de contraponto o exemplo de Álvaro Lins, grande crítico nacional dos anos 40
e de quem não se fala hoje em dia.

O segundo, parodiando letra da cantiga de roda Terezinha de Jesus, foi Antônio Houaiss, dois anos mais velho que o terceiro e três anos mais velho que o primeiro.

Filólogo, também criticado por Francis, mais por birra, que além de livros como a história da cerveja, carregava a honra de ser o primeiro a traduzir Ulysses em português e vencer a labiríntica e áspera obra de James Joyce.

Coisa feita até então por poucos países em seus idiomas nativos, claro. Hoje temos até uma segunda e bem feita tradução por Bernardina da Silveira Pinheiro. E, finalmente, o terceiro, Antônio Callado.

Este era um jornalista e romancista. Hoje se fala pouco de Callado e por consequência, certamente se lê pouco – se é que alguém o leia – a obra dele. Prejuízo para quem não lê, claro.

A obra de Callado é consistente, e talvez a melhor em ficção do período que se convencionou chamar de ditadura militar – entre 1964 e 1989 – e sobre ele. Os livros de Callado abordam especificamente os dez primeiros anos deste ciclo, em que houve o nascimento da ideia de luta armada, de que trata o caudaloso e notável romance Quarup (1967), o engajamento quase romântico de um bando de intelectuais da Zona Sul do Rio de janeiro nesta luta, observado em Bar Don Juan (1971) e, finalmente, o ambiente tenso dos sequestros de que fala o belo e fragmentado Reflexos do Baile (1976).

Somente estes livros fariam a carreira de qualquer escritor. No primeiro, em Quarup, conta-se a história de Nando, padre pernambucano que pensa em reconstituir as missões dos jesuítas e acaba mesmo é se deixando levar pelo apelo da carne – de mulher, claro.

O padre se apaixona platonicamente por uma revolucionária chamada Francisca, se envolvendo sexualmente com uma inglesa chamada Winifred e vai parar no meio do Xingu entre os índios.

Tudo isto é cara escarrada dos anos 50 e 60. Nando vira amante de Francisca e se envolve com a luta armada. O livro tem densidade épica. É possível dizer que poucos – ou nenhum outro – traçaram tão bem o clima de esperança e agitação que movia a esquerda brasileira na virada dos anos 50 para os anos 60.

Já o segundo – Bar do Juan -entra em cheio no pós-68. Intelectuais e estudantes foram para a clandestinidade e se debatem entre cuidar de suas vidas enquanto os militares controlam o País – ou entrar para uma aventura louca, de preferência com o renomado comandante Che Guevara, na tentativa de em algum lugar estabelecer uma guerrilha para repetir no Brasil ou na Bolívia o movimento revolucionário que implantou em Cuba um socialismo de viés stalinista.

Naturalmente não entra em questão se este socialismo é ou não uma burocracia autoritária sustentada pela União Soviética, embora durante um bom tempo, no caso de Cuba, com notáveis conquistas sociais especialmente nos campos da medicina, educação e esporte.

Como na história, a coisa não dá certo, no livro os personagens também se estrepam. O livro fala de João e Laurinha, casal torturado pela ditadura e de uma tentativa de fazer revolução sem povo.

O livro termina como o sonho de Guevara na Bolívia. Em morte. A morte de um sonho. E de personagens. No terceiro livro do núcleo central da obra de Callado, estamos diante de uma tentativa de fazer algo quase impossível -compor o mosaico da época.

Reflexos do Baile tem como tema o sequestro de um embaixador durante um baile de gala no Rio de Janeiro. Ao contrário dos livros anteriores, num estilo realista, este tem interessante proposta narrativa composta de cartas, notícias de jornais, bilhetes, falas alternadas, criando uma proposital fragmentação – que encontra eco na própria realidade do período -que só faz sentido no final do livro.

Assim, como foi o período. O leitor termina o livro com um punhado de fragmentos na cabeça e vaga ideia do que aconteceu, numa correspondência à compreensão que se tinha à época das coisas que aconteciam no País.

Enfim, estes três livros, como já dito, seriam suficientes para qualquer sujeito bater no peito e dizer que é um grande escritor. Mas Callado escreveu, antes e depois, outros livros.

Os que vieram depois de Reflexos do Baile, alguns interessantes, como Sempreviva (1981) e A Expedição Montaigne (1982), não acrescentaram substancialmente à obra.

E os produzidos antes, como Assunção de Salviano (1954) e a Madona de Cedro (1957), serviram para preparar o terreno para voos mais ousados que o escritor deu nos anos 60 para os anos 70. Podia ser o resumo da ópera. Mas tem mais.

Além de romancista, Callado também foi dramaturgo com relativo sucesso e algumas curiosidades como a peça Pedro Mico. Esta foi dirigida por Paulo Francis e teve como cenógrafo um sujeito chamado Oscar Niemeyer.

Pedro Mico ainda foi levado em 1985 por Ipojuca Pontes ao cinema tendo no papel principal o conhecido futebolista Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Callado teve vertido para o cinema em 1968 por Carlos Coimbra com Anselmo Duarte em um dos papéis principais o romance A Madona de Cedro, que também virou minissérie na Globo em 1994.

Outro livro de Callado levado ao cinema foi Kuarup, numa custosa – US$ 5 milhões, cara na época para os padrões de filmes brasileiros – e longa adaptação feita por Ruy Guerra, em 1989. O filme, aliás, foi acusado à época de não fazer justiça ao belo romance do escritor.

Outra atividade que Callado desenvolveu com desenvoltura foi a de jornalista, que, aliás, antecede a de escritor. Nesta condição ele fez cobertura da Segunda Guerra Mundial a partir de Londres para onde foi em 1941.

Callado ficou na Europa até 1947. Pegou o frenesi da guerra e a ressaca que seguiu. Foi correspondente, trabalhou na seção brasileira da BBC em Londres e na seção brasileira da Radiodiffusion Française. E caiu fora.

De volta ao Brasil, trabalhou em publicações de prestígio como O Correio da Manhã, O Globo e Jornal do Brasil. Escreveu reportagens célebres que se transformaram em livros, entre elas Os Industriais da Seca (1953), Esqueleto na Lagoa Verde (1953), Tempo de Arraes (1964) e Vietnã do Norte (1969).

No meio de tudo isto, encontrou tempo para chefiar no começo dos anos 60 uma equipe contratada pela Enciclopédia Britânica para elaborar a primeira edição da Enciclopédia Barsa, publicada em 1963 – uma espécie de Google do tempo em que não havia Google.

E, para fechar o currículo do moço, foi professor nas universidades de Cambridge, na Inglaterra, e Columbia, nos Estados Unidos. Antônio Callado foi casado em 1943 com uma inglesa chamada Jean Maxine Watson, então funcionária da BBC, teve três filhos. E, depois, em 1976, casou-se com a jornalista Ana Arruda.

Ele morreu em 28 de janeiro de 1997, dois dias depois de completar 80 anos. Foi o primeiro dos três Antônios a morrer. Houaiss, três anos mais velho, morreria dois anos depois. E assim termina uma bela história. Que seria mais bela ainda se os brasileiros lessem Callado com maior frequência. O cara merece.