No mundo de hoje, marcado pela falta de postos de trabalhos disponíveis, o sentido do trabalho talvez não tenha mais a característica do sofrimento como tinha no passado pelo excesso de horas trabalhadas, mas poderá ter a marca da insegurança de quem tem um emprego, e da angústia para quem não consegue se empregar. Aspectos como esses são resultados das profundas mudanças ocorridas em âmbito mundial e requerem algumas ponderações.

A primeira reflexão envolve o sujeito social que no trabalho se realiza e se identifica. Antonio Gramsci (1891-1937), que sintetiza a antropologia de Karl Marx (1818-1872), afirma que o ser humano é um processo dos seus atos os quais estão condicionados pela ação de cada um. O educador Moacir Gadotti (1995) relata que o trabalhador exerce em sua prática a função política, o relacionamento com os demais e a preservação da espécie. É pelo trabalho que homens e mulheres se descobrem como seres individuais e coletivos (unidades de contrários).

A segunda reflexão abrange o contexto da negação do trabalho a muitas pessoas. O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (27 de junho de 2002) divulgou que a taxa de desemprego, com ajuste sazonal, subiu para 7,1% em maio, o número mais alto em dois anos. Esse percentual vem confirmar que mais de onze milhões de pessoas estão fora do ambiente de trabalho. Portanto, como os trabalhadores, que estão à margem do trabalho, poderão se descobrir como seres individuais e coletivos?

A terceira reflexão diz respeito à distribuição dos salários e dos empregos. André Urani, presidente do IETS – Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, e professor da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, comenta que as pessoas mais ricas são mais escolarizadas (88,7% dos riquíssimos, em média, têm 12 ou mais anos de estudo) e têm melhores chances no mercado de trabalho. (…) A renda doméstica de R$2.183,60, por pessoa, pertence somente a 1,7 milhão de brasileiros. O diretor-presidente do IPARDES – Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, Paulo Mello Garcias, afirma: “de 2000 para 2001, a renda média do trabalhador na grande Curitiba passou de R$784,27 para R$ 763,50 – queda de 2,64%” (O Estado do Paraná, 26 de janeiro de 2002). Esses dados identificam o desequilíbrio na partilha dos bens e a falta de ética na prática trabalhista brasileira.

A última reflexão examina a contradição na cultura escolar, uma vez que o currículo das escolas brasileiras não considera a vivência do trabalhador. Os trabalhadores recebem somente informações básicas para atender às necessidades das fábricas ou dos empresários. Por que o trabalhador não possui domínio pleno do saber? A primeira explicação é encontrada na influência do economista, o filósofo escocês e fundador da escola clássica, Adam Smith (1723-1790), que afirma: “Instrução para os trabalhadores, porém, em doses homeopáticas”. A segunda explicação é encontrada na definição da organização científica do trabalho, de Frederick Taylor (1856-1915), que exerce influência no cotidiano escolar. Taylor tomou por base o operário no interior da fábrica e analisou os conhecimentos que os trabalhadores possuíam para criar o estudo dos tempos e dos movimentos.

O educador brasileiro Demerval Saviani (1999) comenta porque Smith defende a pouca instrução: se o trabalhador ultrapassar o mínimo de instrução começa a participar do saber como força produtiva, o que é exclusivo da classe dominante e isso não interessa à burguesia. Quanto a Taylor, afirmou: “analisando as formas do processo de produção, cujo saber os trabalhadores dominavam, o que fez Taylor? Elaborou, sistematizou essas formas. Com esse procedimento, desapropriou os trabalhadores daquele saber, elaborou-o e devolveu-o na forma parcelada. Os trabalhadores foram desapropriados e o saber sistemático, relativo ao conjunto do processo produtivo, passou a ser domínio da classe dominante. Cada trabalhador só domina a parcela que opera no processo de produção coletiva.”

Considerações – A escola contemporânea não resgata o conhecimento total pertencente ao trabalhador. A educação que liberta e que promove a dignidade humana não ocorre. Pelo contrário, a educação cotidiana estimula e serve de apoio aos grupos que dominam. A doutora, pesquisadora e professora da UFPR- Universidade Federal do Paraná, Acácia Kuenzer, explicou a respeito da educação do trabalhador: “na elaboração das novas propostas, o trabalhador é um participante fundamental; ele sabe o que precisa aprender, e a escola com seus intelectuais precisa aprender a ouvi-lo, assumindo o papel que lhe cabe, de articular e organizar junto com os trabalhadores o projeto pedagógico necessário. (..) Torna-se necessário elaborar uma pedagogia para o trabalhador adulto, com ele, a partir e no decorrer da ação pedagógica concreta. Os professores precisarão aprender a ensinar matemática, física e desenho, a partir do paquímetro e dos instrumentos de trabalho; a ensinar eletricidade montando painéis eletrônicos, a ensinar química trabalhando com tintas e solventes, a ensinar história discutindo as relações sociais concretas que determinam a vida do trabalhador. (…) Ou seja, intelectuais e trabalhadores precisam reinventar, no fazer, a educação.”

É necessário que os profissionais da educação, além de se reciclarem, retomem junto com os estudantes e os trabalhadores o estudo crítico da realidade histórica brasileira que foi de exploração, de manipulação e de injustiças. Nesse caminho da procura das raízes, a memória será resgatada e com ela o discernimento dos domínios ocorridos no período colonial, imperial e republicano em que os trabalhadores foram vítimas.

A transformação da realidade humana depende da consciência de que todos devem ter o necessário para viver e de que os meios de produção brotam da classe trabalhadora porque ela gera riqueza e que, por esta razão, tem o direito natural do acesso pleno ao saber e aos salários justos. É preciso que a transformação ocorra na dimensão do trabalho individual e coletivo e que haja reflexão sobre como age o sistema capitalista, na tentativa de encontrar alguma forma de resistência. Se as pessoas fizerem sua parte, poderão ter certeza de que Deus será realmente brasileiro e o trabalho terá significado pleno.

Jorge Antonio de Queiroz e Silva

é especialista em Metodologia do Ensino de História. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.E-mail: queirozhistoria@terra.com.br