Venho presenciando atônita o tratamento que a sociedade não-índia, ou seja, a nossa sociedade vem dando aos índios. Não me refiro somente aos mbya-guaranis com os quais tenho maior contato devido a minha pesquisa de mestrado, mas a outros, como os 55 avás-guaranis, expulsos recentemente do parque Nacional do Iguaçu, e os xetás e kaingangues, que foram ?afastados? em seu comércio de artesanato do centro de Curitiba para os diversos bairros, pois disseram que ?estamos estragando o cartão de visita da cidade? (índio kaingangue Alcino Almeida).

Não se pode esquecer que antes da chegada dos colonizadores, todo território brasileiro pertencia aos índios. Eles são os verdadeiros donos. Quando se luta por demarcações das terras indígenas, não se está fazendo nenhum favor, nem mesmo quando se doam alimentos, roupas, calçados ou se atende a algum pedido. Ouço pessoas dizerem: ?são como crianças grandes que precisam de alguém para tomar conta?. O cacique Nilo da aldeia da ilha da Cotinga, por exemplo, explica que não é assim: ?já que os não-índios tiraram nossas matas e nos obrigam a viver num pedacinho pequeno de terra, precisam nos ajudar?.

Por outro lado, quem não sabe, o órgão principal responsável pelos assuntos indígenas, sem desmerecer quem ocupa seus postos atualmente, não tem sido capaz de articular necessidades indígenas com dinamismo. Só para se ter uma idéia, desde a década de 80 os mbya-guaranis da ilha da Cotinga precisam de barcos para a travessia, precisam de técnicas que ajudem ao melhor aproveitamento de seu terreno, e de outras alternativas econômicas, mas até hoje parte de sua economia é constituída de doações. Se perguntados sobre a situação, nenhum deles está satisfeito com isso, pois, voltados aos costumes de seus ancestrais, prefeririam ter mais terra e seguirem sua própria tecnologia de plantio, aliás muito desenvolvida. Mesmo quando são convidados para apresentar seus shows musicais, dificilmente deixam de ser tratados como pessoas exóticas ou como instrumentos de política paternalista.

Questiono: a ?colonização? não vem assim se mantendo através da sua dependência? Esses povos ?têm objetivos próprios e precisam de um Estado que não fique só falando em nome do índio?. (RICARDO,2002). Falta uma política consistente. Entre os maiores problemas estão a questão fundiária, pois  garimpeiros, traficantes e fazendeiros invadem reservas indígenas. O Estatuto do Índio está desatualizado e a Funai é pouco ágil e instável em relação aos novos posicionamentos e reivindicações dos índios nas aldeias e na cidade.

E quanto aos avás-guaranis? Quem acompanhou sua história pela imprensa sabe do que estou falando. Cansados de esperar demarcação de novos territórios para seu grupo, acamparam no Parque Nacional do Iguaçu. O Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, teve pedido de solicitação de reintegração de posse acatado pelo juiz da 2.a Vara Federal de Foz do Iguaçu. A Funai alegou falta de recursos para adquirir novas terras. E o que se viu? Policiamento, confronto, a força… Para evitar mal-entendidos e confrontos, seria importante que os não-índios considerassem sempre o ponto de vista dos nativos (GEERTZ, 2003), antes de qualquer ação. Eles constituem a diversidade cultural que por si só deveria ser mantida e preservada, além de sua história e de tudo o que significam para o País.

E quanto ao afastamento dos xetás e kaingangues do centro da cidade de Curitiba? Eles estragam o cartão de visita da cidade? E qual é o cartão de visita perfeito? Seria o da monotonia? Como entender nossa sociedade? De um lado, muitos turistas estão à procura de índios exóticos, pelados, com flechas e lanças prontos para atacar. São procurados para visita como são procurados os animais dos zoológicos. De outro, se eles estão vestidos com roupas comuns, vendendo seu artesanato na rua XV de novembro em Curitiba, são convidados pelos fiscais da Prefeitura a se retirarem.

Foram impostos aos índios diversos outros pontos de vendas, alguns próximos, outros distantes do centro. Pergunte-se a um comerciante o que acontece se, de repente, ele precisa sair de um local de boas vendas para outro local que ele não planejou sem ou com menor movimento. ?Determinaram que fôssemos um dia da semana em cada praça, mas lá não passa ninguém. Então ficamos só na Praça Osório, nas sextas-feiras e sábados e, no Largo da Ordem, aos domingos, mas nossas vendas caíram de 70 a 80%.? (Alcino).

Chamo a atenção não somente para o fato do afastamento em si, mas para a ideologia que está por detrás disso e que precisa ser questionada. Pergunto: não há semelhança entre o afastamento dos índios do centro de Curitiba para pontos de menor movimento com a supressão de serviços oferecidos pelos pobres no século XIX? Como explicam Chalhoub (1996) e Chevalier (1969), na segunda metade do século XIX, intelectuais, parlamentares e políticos identificavam classes pobres e trabalhadoras como perigosas, e se promoveu uma segregação socioespacial que separava ricos dos pobres porque os pobres estariam ?empobrecendo? a sociedade. O fato dos índios serem afastados do centro para outro locais não-escolhidos por eles deixa uma pergunta no ar: eles estariam ?indigenizando? a sociedade? (Em outro momento escreverei mais sobre isso.)

Como cidadã, jornalista e estudante de antropologia, deixo aqui minha repulsa das práticas contra as sociedades indígenas. Apelo para que os cidadãos visitem mais as aldeias e que, lá chegando, tenham a capacidade de ouvir o que os índios têm a dizer, o que eles reivindicam, e que, cada qual, dentro de seu nicho social, passe a entender que os índios não são crianças grandes e dependentes, mas sujeitos sociais.

Maiores aprofundamentos:

CHALHOUB, S. Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

CHEVALIER, L. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris pendant la 1ère moitié du XIXe siècle. Paris, Plon, 1969.

GEERTZ, C. O saber local. 6. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal, 1984.

RICARDO, B. Povos Indígenas no Brasil, Instituto Socioambiental, 1996/2000.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. zeliabonamigo@uol.com.br