Tivesse Sérgio Britto um programa só para contar histórias, jamais faltaria assunto. Essa capacidade de prender a atenção das pessoas fez com que, ainda rapaz, ele abandonasse a medicina para se tornar ator. A escolha foi certeira. Aos 83 anos e mais de 60 de carreira, ele soma sucessos no teatro, no cinema e também na tevê, onde fez história desde os tempos do Grande Teatro, da TV Tupi, na década de 50. No programa Arte com Sérgio Britto, que ele comanda há seis anos na TVE, Sérgio não relata fatos curiosos dessa larga trajetória. Transmite, no entanto, muito do que aprendeu e adquiriu nessa caminhada indicando espetáculos, livros e filmes que sempre têm algo a dizer. ?Sou um comunicador que não fala palavras bonitas para impressionar o público. Dizem que sou maravilhoso, mas isso não me satisfaz. Estou na televisão porque sou feliz fazendo esse programa?, defende.

P – Para um ator com uma carreira fortemente ligada ao teatro e ao cinema, quão importante é discutir arte na televisão?

R – O que mais me preocupa é a cuca das pessoas. Antes do Arte com Sérgio Britto, eu fazia o Diários de Teatro, que só falava de espetáculos que aconteciam no palco. Mas me perguntavam porque eu não falava de livros e de cinema. Tenho a oportunidade de discutir arte em todos os níveis na TV. E sempre atento para que compreendam o que estou dizendo. Falo para meus convidados que nossa intelectualidade é importante, mas que temos de transmitir ao público, que não é especialista, algo inteligível. Se não for assim, esse espaço não serve para nada.

P – Quais são os critérios que você utiliza para indicar um produto cultural no programa?

R – É delicado para mim falar mal do espetáculo de um colega. Então, quando não cito uma peça ou um filme, é porque não gostei. A não ser quando falo de porcarias como Homem-Aranha 3 e Piratas do Caribe, porque sei que não vou prejudicar a bilheteria deles. Mas também não tenho preconceito. Destaco desde grandes livros a romances policiais. O importante é despertar nas pessoas a vontade de ler, de ir ao teatro ou ao cinema.

P – Se você fosse sugerir programas televisivos, quais seriam?

R – (Pausa) Não estou fugindo da raia, mas acho que não vejo televisão o bastante. Não tenho preconceito em relação às novelas e adoro ver, Paraíso Tropical, do Gilberto Braga. Às vezes também acompanho A Grande Família. E vejo uma vez ou outra a Hebe porque acho ela muito engraçada. Mas não tenho paciência e já enjoei de muita coisa. Assisto também ao Sportv porque sou tarado por futebol. Mas acho que uma programação televisiva preocupada em transmitir cultura só há na TVE e na TV Cultura de São Paulo. Não vejo pessoas fazendo o que faço na tevê. Mas não estou dizendo que sou fantástico por causa disso. Só faço o programa do jeito que gosto de fazer.

P – Você disse que gosta de ver novelas, mas há bastante tempo não participa de uma. Por quê?

R – Não sinto saudades de fazer novela, não foi uma coisa que me pegou. Guardo com carinho dois folhetins da Manchete, Dona Beija e Xica da Silva. Na Globo, Paraíso, novela em que eu contracenava com a Tereza Raquel. Mas ela foi convidada para fazer a novela das oito da época e acharam uma maneira de matá-la de qualquer jeito na trama. A personagem morreu em um acidente com o chofer, que era seu amante. Nós éramos um casal apaixonado e um dia eu chego para gravar e o texto todo mudou. Tornei-me um corno. Que cara eu ia colocar naquele personagem que vivia feliz? Foi a última novela inteira que fiz na Globo.

P – São mais de 60 anos de carreira. O que sente ao recordar tudo o que você já fez?

R – Fico assustado quando olho para trás e vejo tudo o que aconteceu. Daqui para a frente continuo gravando o programa e, em setembro, reestréio a peça Jung e Eu, no Sesc Copacabana.