Para o espectador brasileiro – e o da Mostra, em particular -, seu nome é indissociável do de Manoel de Oliveira, para quem produziu 20 filmes – 20! Como toda união, o casamento artístico de Oliveira com o produtor Paulo Branco chegou a um ponto de desgaste e, em 2009, aqui mesmo em São Paulo, e na Mostra, o mestre português anunciou que se havia separado do produtor porque precisava pensar em seu futuro. Parecia piada – Oliveira já se tornara centenário (nasceu em 1908). Seguiram cada um para o seu lado, mas Branco, com alma de cinéfilo, conta que segue acompanhando com muito interesse a obra de Manoel.

Paulo Branco recebe, a partir desta quarta-feira, 26, a homenagem do CCBB, que apresenta uma retrospectiva de seus filmes. Não da obra integral, composta de cerca de 300 títulos, porque Branco não faz muita distinção entre os que produz e os que distribui. Ambas, a produtora e a distribuidora, têm o mesmo nome – Alfama -, com sedes em Lisboa e Paris. Na França, a Alfama distribui somente os filmes que o próprio Branco distribui. Em Portugal, possui 11 salas em Lisboa e uma no Porto. Cada filme é uma aventura. São 300 aventuras, portanto, mas ele é capaz de citar filmes que lhe são particularmente queridos.

Dois de Oliveira (Val Abraão e Paulo e Francisca), dois de Raoul Ruiz (O Tempo Reencontrado e Mistérios de Lisboa), um de Alain Tanner (A Cidade Branca) e um de Wim Wenders (O Estado das Coisas). O CCBB apresenta uma seleção de 20 filmes, agrupados sob o título A Produção Criativa. Dos favoritos do produtor, dois integram a seleção (Mistérios e A Cidade Branca). Oliveira é representado por A Divina Comédia e Palavra e Utopia. Pedro Costa, por Ossos. Nascido em Lisboa, em 1950, Branco iniciou o curso de Engenharia Química, mas desistiu. Foi para Londres, em 1971, e Paris, em 73. O cinema irrompeu em sua vida quando tinha 24 anos. Foi quando começou a trabalhar no cinema Olympic com Frédéric Mitterrand. Logo em seguida, assumiu a gestão da sala parisiense Action-République. Em 1979, aos 29 anos, tornou-se produtor. Já era amigo de Marguerite Duras, João César Monteiro, Ruiz e de muitos outros nomes fortes do cinema de autor. Oliveira chegou depois – e com O Sapato de Cetim, em 1985, criou-se ‘a’ parceria.

Mesmo assim, ele nega que só se interesse por filmes de arte e ensaio. Interessa-se pelo cinema consequente e independente. Admite que os dois últimos anos foram os mais difíceis para quem atua na área, no quadro de uma Europa em crise. A situação em Portugal tornou-se catastrófica, mas Branco está mais otimista. “Durante 30 anos lutamos por uma lei de cinema que foi assinada agora. Os próximos editais já terão um aporte pelo qual vimos batalhando há muito tempo.”

Ele terá um encontro com o público da retrospectiva no dia 8 (de março). Quer aproveitar a estada na cidade para se encontrar com produtores e distribuidores.

Existe um acordo binacional, entre Brasil e Portugal, mas precisa ser incrementado. A França tem sido parceira frequente. Entre os novos filmes, cita As Variações de Casanova, de Michael Sturminger, e um Georges Simenon pelo qual tem muito apreço – La Chambre Bleu, adaptado por Mathieu Amalric. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.