Na janela da sua casa, pode ser seguro sacar o celular para gravar vídeos e fazer fotos. Há muitos anos, durante a guerra civil no Líbano, a mesma atitude poderia ser considerada um ato – inconsciente – de suicídio.

Todas essas gravações que vão parar nas redes sociais servem para revelar pequenos filmes de horror sem fim. Reunidas pelo libanês Rabih Mroué em Revolução em Pixels, elas demonstram atiradores disparando em pessoas com celulares nas mãos. Esta e mais duas peças do artista integram a programação da 4ª Mostra Internacional de Teatro.

Desde 1989, ele enfrenta a dura memória da guerra civil que deixou sequelas no país e nas pessoas ao seu redor. No palco, Mroué constrói uma aula que se dissolve na baixa qualidade dos vídeos de quem morreu por tentar registrar os conflitos no país. Hoje, um pouco mais cansado e longe de sua terra natal – ele mora em Berlim-, Mroué fala ao Estado sobre a criação de um teatro de baixo custo que, frequentemente, sofria censura pelo governo e que hoje encontra ressonância na Europa e no mundo. “Para todo artista que começa, há o embate do que se deseja dizer com a busca de uma maneira possível de dizer. No Líbano, isso se torna um risco já que os conflitos parecem ser o único assunto.”

Revolução em Pixels também foi fruto de sua experiência como editor de vídeos em um canal de televisão fechado na capital. “Era o que eu fazia todos os dias no estúdio e que naturalmente se estendeu para o palco. Foi um modo barato de contar histórias, já que não há apoio. Pelo contrário.” Mroué afirma que a rotina era ter de mostrar os trabalhos para um censor. “Até o dia em que comecei a apresentar em casas de conhecidos. Eles não poderiam proibir um evento privado.”

A segunda montagem, Cavalgando em Nuvens, coloca no palco seu irmão Yasser, que foi ferido na guerra com um tiro na cabeça. “Ele tem dificuldades de fala e de locomoção. Essa condição expõe uma fragilidade real quando relata sua experiência no exército e a condução política do país, além do desafio de se expor e revisitar a própria dor.”

Para completar sua mostra, Tão Pouco Tempo refaz a trajetória ficcional de um mártir islâmico, que foi dado como morto e foi instituído herói da nação. Muito tempo depois, ele retorna à cidade, colocando em risco a força dos monumentos e lendas criados para louvar sua história. A montagem tem parceria com a atriz Lina Majdalanie.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.