Três anos depois de Volver, Penélope Cruz volta a estrelar um filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, a quarta parceria da dupla (vista também em Tudo sobre minha mãe e Carne trêmula).

Abraços partidos, que estreia hoje nos cinemas do País, é mais um belo e competente trabalho do diretor, com traços característicos do Almodóvar durante toda a projeção, como o cenário com cores fortes e objetos chamativos, enquanto se consegue contar uma história melodramática sem que o espectador nem veja o tempo passar.

Ver Abraços partidos é uma delícia para os amantes do cinema. A já tradicional metalinguagem do cinema de Almodóvar, a “história dentro da história”, desta vez se passa com o personagem-diretor Mateo Blanco, ou Harry Caine, seu pseudônimo, que está filmando a comédia Garotas e malas, que, mesmo vendo apenas trechinhos, deixa o espectador com gosto de “quero mais”.

Além da própria temática, são muitas as referências feitas por Almodóvar ao próprio cinema, seja a seus próprios trabalhos anteriores, seja a diretores que ele admira, como Federico Fellini, ou à atriz Audrey Hepburn, a quem Penélope recria caras e bocas.

Penélope interpreta Lena, secretária que sonha em ser atriz e que acaba sendo escalada para a comédia do diretor Mateo Blanco, filme que é patrocinado pelo seu rico marido, o empresário Ernesto Martel.

Durante a convivência, Lena passa a ter um caso com Mateo e a união desses personagens vai resultar em um trágico desfecho para todos os envolvidos, o que só será resolvido anos depois, não sem antes de muito sofrimento.

Após os acontecimentos, Mateo abandona seu nome para assumir em tempo integral seu pseudônimo de Harry Caine. Os personagens ao redor do trio principal também são muito ricos e se amarram bem à história central, como a amiga de Mateo, Judit e o filho dela, Diego, assim como o filho homossexual do empresário milionário, que realiza o making off de Garotas e malas.

A história trágica é permeada pelo humor “almodovariano”, como nas cenas em que Martel contrata um serviço para fazer a leitura labial dos diálogos entre Lena e seu amante, filmado nos bastidores da gravação do filme, nos quais sua mulher declara seu amor por Mateo e seu desprezo pelo marido.

Ao contrário da crítica feita a muitos grandes diretores, que pecam por não saberem finalizar suas obras de arte, as cenas finais de Abraços partidos são um desfecho alegre e, sem dúvida, muito bem produzido.

Nem se pode dizer que o filme todo resultou de dores de cabeça, provocadas por crises de enxaqueca constantes que fazem parte da vida de Almodóvar, que chegou a duvidar que conseguiria terminar este seu mais novo filme. A arte, feita da dor, produz efeitos maravilhosos.