Luiz Melodia foi um assombro quando surgiu e também quando partiu. Quando Gal Costa fez seu histórico show no teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, surgiu com uma canção diferente. “Pérola Negra” era o nome. “Tente passar pelo que estou passando / Tente apagar este teu novo engano / Tente me amar pois estou te amando / Baby, te amo, nem sei se te amo…”. Da letra enigmática e sedutora e da melodia que parecia ter sido feita para aquele momento e para aquela Gal, ficava a pergunta: quem é o autor?

Era um jovem de 21 anos, do bairro do Estácio. Tinha tudo para ser um sambista, nasceu e cresceu na região da primeira escola de samba. Mas Luiz Melodia, o autor de “Pérola Negra”, tinha 13 anos em 1964, ano do Golpe Militar, de Tom e João Gilberto nos Estados Unidos, do Zicartola e também de Roberto e Erasmo Carlos. Ele se formou cidadão e músico no meio desse caldeirão cultural que era o Brasil pós-golpe. Não seria apenas um sambista, ou apenas um cantor de rock, ou apenas um cantor de Bossa Nova. Seria ele, seria Luiz Melodia.

E isso ficou claro desde as referências pop de “Pérola Negra” e de outras canções que estiveram em seu primeiro álbum, lançado na esteira do sucesso de Gal. “Estácio, Holly Estácio” é a mente fervilhante de Melodia quase sem filtros, uma letra que mistura feriados americanos com a passista do Estácio e uma levada que evoca uma bossa “antiquada”. E ainda havia “Magrelinha”, “Vale quanto pesa” e “Farrapo humano”, entre outras.

Luiz Melodia sempre teve uma atitude afirmativa de sua arte e de sua posição na sociedade. Foi a um festival, na Rede Globo, com o significativo nome de Abertura, em pleno 1975, quando o racismo era menos velado do que hoje, e cantou “Ébano”: “Eu grito ébano / O couro que me cobre a carne / Não tem planos / A sombra da neurose te persegue / Há quantos anos…”. Tinha 24 anos, era um artista completo e à frente do seu tempo.

E ainda não havia chegado ao auge, que viria no ano seguinte, com “Juventude Transviada”: “Lava roupa todo dia, que agonia / Na quebrada da soleira, que chovia / Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada / Uma mulher não deve vacilar…”. Era um samba, um protesto sutil, uma canção superior que teve um alcance nacional, graças à exibição massiva na novela Pecado Capital, da Globo.

Em apenas quatro anos de carreira profissional, Melodia construiu uma obra sólida. Seria difícil superar tamanho sucesso e reconhecimento como compositor e cantor. O que fez o cidadão Luís Carlos dos Santos? Não fez concessões. Continuou produzindo, seguindo o que seu coração mandava e sem fugir de nenhuma de suas influências – Zé Kéti, Roberto Carlos, João Gilberto, Cartola, Beatles, Gal Costa, Wilson Batista, Dorival Caymmi, Jamelão, Geraldo Pereira, Roberto Menescal, Getúlio Côrtes, Cazuza.

Recuperou o sucesso como intérprete, como os antigos sambistas dos anos 40, que também cantavam de tudo durante o ano. Fez do clássico “Codinome Beija-Flor” um gigantesco êxito popular, resgatou com reverência a simbólica “Diz que Fui Por Aí”, transformou o iêiêiê “Quase Fui Lhe Procurar” em um bolero. E não deixou de compor. E não deixou de se apresentar, mesmo já em tratamento de um câncer.

O “Pérola Negra” que virou “Ébano” também foi “Negro Gato”, trazendo da canção de Getúlio Côrtes o que ela tinha de escondido, o grito de liberdade. “Minha triste história, vou lhes contar / E depois de ouvi-la, sei que vão chorar / Há tempos que eu não sei o que é um bom prato / Eu sou um negro gato…”. E esse símbolo de arte superior e de cidadania, que assombrou desde o início da carreira, nos assombra também ao deixar o pano cair tão cedo, aos 66 anos.