Há muito tempo as pessoas têm o mesmo discurso quando o assunto é leitura: “o brasileiro não gosta de ler”. Porém, embora o Brasil esteja longe de ser um país de leitores, as pessoas que aqui vivem estão lendo mais, sim. Pelo menos é o que apontou a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró Livro no ano passado. A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) também realizou uma pesquisa no ano passado, que apontou que o mercado editorial brasileiro cresceu 6,4% em 2007, em relação a 2006. Enquanto em 2007 o faturamento do ramo foi de R$ 2,28 bilhões, no ano anterior chegou a R$ 2,14 bilhões.

Portanto, a análise dos especialistas é bastante otimista em relação ao Brasil chegar a ser um país de leitores no futuro. Pois tudo conspira para isso. A professora de Literatura do curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Marta Morais da Costa diz que o interesse pela leitura cresceu mais nos últimos cinco anos, em todas as idades, principalmente entre as crianças. “Porém, fazemos um discurso restrito da situação, imaginando que ler é coisa apenas para criança. Estão até querendo criar o dia da leitura no dia 12 de outubro. Temos que mudar esse quadro”, alertou.

A pesquisa do Pró Livro aponta esse interesse maior pela leitura por parte das crianças. Do universo pesquisado – 172 milhões de brasileiros – as crianças foram as que mais leram no período, principalmente aquelas na faixa etária até os dez anos de idade. Somado a isso, outro dado da Fipe também aponta um cenário positivo para a literatura infantil, embora a pesquisa tenha apontado que houve uma diminuição no número de títulos editados no País em 2007 – de 20.177 obras em 2006, para 18.356, no ano passado. Porém, houve um aumento na quantidade de títulos impressos – 81.374.917 em 2006, para 112.248.282 em 2007. Dentro desse aumento, foi verificado um acréscimo nos títulos infantis – de 3.031 para 3.491.

“As pessoas estão comprando mais livros. Sem falar que há várias iniciativas de editoras que disponibilizam livros mais baratos, além dos sebos e dos próprios leitores, que já não guardam tanto seus livros nas estantes e os fazem rodar. Além disso, as escolas também estão lutando para aumentar seus acervos e os governos estão tomando atitudes, com o Plano Nacional do Livro. Estamos longe do ideal, mas percebo que a partir do ano 2000 a leitura se tornou mais relevante para o brasileiro”, comentou Marta.

A mesma opinião tem a professora de Língua Portuguesa do Colégio Bom Jesus Izolda Bollmann. Para ela, o brasileiro está lendo mais – e cada vez mais cedo – mas ainda muita gente não tem acesso aos livros. “Estamos aquém do ideal, por uma série de motivos. Não só pela questão do poder aquisitivo, pois muita gente ainda reclama do preço dos livros, mas muito mais pelo fator cultural. Falo isso com pesar. Mas por outro lado, até as livrarias estão se tornando espaços mais agradáveis, há espaços para contação de histórias. Para os estudantes de escolas públicas, a leitura talvez seja a única forma de lazer. Temos também o cinema, a TV, o teatro, que levam a literatura às pessoas. A leitura está ampliada, e isso contribui para a valorização cada vez maior do livro”, comenta a professora.

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Enquanto as pesquisas indicam um número maior de títulos religiosos – foi o maior aumento registrado pelo estudo da Fundação Institutode Pesquisas Econômicas (Fipe), sendo que em 2006 foram editados 4.383 títulos, em 2007 foram 5.570 – os editores e escritores do ramo de romances não estão tão otimistas. Ainda mais quando são escritores que ainda não estão consagrados no cenário nacional e quase “não aparecem” nas grandes revistas e jornais como “os campeões de vendas”. Somado a isso está o fato dos títulos científicos terem diminuído em 2007, segundo a pesquisa da Fipe: em 2007, foram editados 9.780 títulos desse gênero no País, 19% a menos que em 2006, quando foram editados 12.081.

Para o escritor desse tipo de literatura menos explorado pela grande crítica, Paulo Sandrini -, que também faz parte da editora Kafka – o mercado é escasso. “Não há público para esse tipo de leitura. O mercado é complicado para quem não escreve a literatura para o grande público. Creio que o brasileiro está lendo mais sim, mas que tipo de leitura? Acredito que a função da literatura é construir uma sociedade a partir das coisas simbólicas. Quando você dá as coisas prontas para o leitor, não se faz essa construção, é o que ocorre com a literatura comercial”, observa. Segundo Sandrini, outro grande problema é a questão da distribuição. “As grandes distribuidoras não pegam esse tipo de livro porque sabem que não vai vender. E nós temos consciência disso. Então buscamos inovar com algo diferente, com design, por exemplo”, diz ele.

O Centro de Línguas (Celin) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) oferece as Oficinas de Criação Literária. Porém, a procura não tem sido muito grande. Para a coordenadora do curso, Raquel Bueno, o cenário não é tão animador, embora ela esteja otimista com a abertura de mais uma turma no ano que vem – por enquanto há somente um grupo de estudantes que se interessou por produzir textos, que é o objetivo do curso. “Acho que se todas as crianças que se interessam pela leitura na escola crescessem com o mesmo interesse teríamos um cenário muito melhor”, analisa.

O Celin pretende também expandir o público do curso de crônicas e de interpretação de música brasileira, porém, até agora não houve muita procura. “Vamos insistir. No curso de Criações Literárias, os alunos gostam muito e vêem o curso até com o um lazer”, diz a professora. Para ela, uma das saídas para tentar se chegar a um “país de leitores” seria uma mudança  já na escola. “Acho que o uso instrumental da literatura afasta os estudantes dos livros. Temos que associar a leitura ao prazer, e não associá-la a algum tipo de conteúdo”, comenta.