Dois chefes de grupos domésticos no ritual de Yrehupukuru. O detalhe é
a cabeça de anta pendurada. (Foto: Ednelson Souza Pereira) (Makuxi)

Os Kagwahivas Parintintins formam um ramo da família lingüística tupi-guarani (Rodrigues, 1986). Vivem na região dos afluentes dos rios Tapajós e Madeira, no Estado do Amazonas. Sua população é formada por 150 pessoas que vivem nas aldeias de Canavial, Pupunha e Traira. Eles foram estudados pela antropóloga Angela Kurovski cuja dissertação de mestrado, Anfitriões Guerreiros: um estudo sobre rivalidade e generosidade nos Kagwahiva Parintintin, foi apresentada em 21 de março de 2005 na UFPR-Universidade Federal do Paraná, com a orientação dos professores doutor Marcos P. D. Lanna e Andréia de O. Castro.

Depois de várias décadas de conflito com diferentes frentes extrativistas, os parintintins foram atraídos, em 1922, pelo SPI-Serviço de Proteção ao Índio, com apoio financeiro do seringalista Manoel Lobo. Após alguns anos encontravam-se empregados como mão-de-obra barata na empresa extrativista de seringa. A ideologia oficial de integração e as epidemias e mortes dos mais velhos trouxeram profundas alterações internas. Contudo, demonstra Angela que, a despeito dos dramas vividos pelo contato, as ações contemporâneas dos Parintintins ainda estão pautadas nos esquemas culturais do universo Tupi.

A pesquisadora explica que os kagwahivas se dividem em duas metades exogâmicas patrilineares, Kwandu – Tarave (gavião, ararinha) e Myty Nhãguera (mutum, nós antigo). Embora as práticas matrimoniais estejam limitadas pelo atual desequilíbrio demográfico, as metades possuem um valor ideológico para os parintintins. Em fins de 1994 os kagwahivas parintintins mostraram preocupação com a possibilidade de esquecimento da língua, pois o português regional era usado na vida comunitária e familiar. Resolveram empreender uma pesquisa de sua história antiga junto aos mais velhos, entre as práticas realizadas, recuperaram o ritual do irerupukuhu, ocasião formal que propiciou a rememoração de cantos antigos quase relegados ao esquecimento.

A pesquisadora, que atuou como indigenista durante 14 anos, descreveu um ritual ocorrido na aldeia Traíra, por ocasião de uma reunião com autoridades e funcionários de órgãos governamentais para discutir o reconhecimento e o apóio financeiro referentes ao Programa de formação para professores indígenas locais, em 1998. Relata Kurovski que ?no final de uma dança antiga, os parintintins simularam um ataque e apontaram suas flechas para as autoridades?.

Um segundo exemplo relatado pela pesquisadora ocorreu numa reunião, promovida pelos kagwahivas e Toras para a implantação do Conselho de Saúde Indígena, Humaitá-AM, à qual foram convidados órgãos governamentais e não-governamentais. As populações indígenas compareceram à reunião paramentadas com sua indumentária, suas danças e cantos. Resultado: conseguiram, além de fundar o conselho, garantir a presidência e vice-presidência do conselho. Naquele dia, como em outros eventos ocorridos para negociações políticas com o Estado, não eram professores, agentes de saúde e lideranças parintintins que se resignavam à palavra de uma autoridade não-índia. Eram realmente guerreiros kagwahivas em uma ?guerra invisível?.

Para a pesquisadora, esta ?situação parintintin se revela simbolicamente complexa e criativa e não pode ser compreendida como uma simples retórica teatral frente ao outro ou com fins de uma razão prática, visando obter financiamento estatal; longe disso, estão fundamentadas na sua cosmologia, e elementos dos antigos rituais são reatualizados nestes eventos políticos. As representações que os parintintins constroem dos outros e de si mesmos se moldam diante das circunstâncias, como um complexo jogo de espelhos?.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná

zeliabonamigo@uol.com.br