O pianista francês Pierre-Laurent Aimard faz nesta terça-feira, 5, e quarta, 6, recitais que vão levar ao palco da Sala São Paulo obras de grandes mestres do século 20 – Ligeti, Kurtag, Debussy, Messiaen e Scriabin entre eles. É música sob medida para um artista que, ao longo da carreira, construiu a reputação de grande especialista em música contemporânea. A pecha, no entanto, não o agrada – nem um pouco.

“Não se trata de eleger um período como foco, mas, antes, de uma compreensão mais ampla do que é a música e do papel do intérprete”, ele diz, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo no último sábado, dia 2. “Montar um recital não deve ser apenas juntar peças, mas, sim, criar sentidos”, completa, mostrando por que é um dos artistas mais estimulantes de sua geração.

No recital desta terça, 5, pela temporada da Sociedade de Cultura Artística, Messiaen e Kurtág aparecem ao lado de trechos do Cravo Bem Temperado, de Bach; já nesta quarta, 6, Chopin se une a Scriabin e Ligeti, entre outros autores. Misturar épocas e estilos não é novidade para o pianista.

Em agosto, na edição deste ano do Mostly Mozart Festival, em Nova York, ele será responsável por concertos que estabelecem paralelos entre autores como Mozart e Bach com Webern, Boulez e George Benjamin. Em 2009, ele também propôs, em disco, a união de Beethoven e Bach à escrita do norte-americano Elliot Carter – e o título deste álbum não poderia ser mais emblemático: Not Just One Truth, algo como “não há apenas uma verdade”.

“A ideia básica por trás desses recitais e projetos é uma percepção menos sectária da história da música. Entender a evolução da escrita como a sucessão de quadros individuais é questionar esse próprio caminho evolutivo. Imagine-se em uma exposição: a presença de quadros de diferentes períodos permite a você perceber o modo como a herança se traduz por meio da transformação”, explica.

E a mesma lógica pode ser aplicada a um recital. “Ao unir essas peças, quero mostrar como cada autor respondeu aos desafios da escrita, como a forma se transformou. E só é possível fazer isso criando ressonância entre elas. O meu objetivo como intérprete é suscitar a reflexão. É uma tarefa pedagógica, em certo sentido. O intérprete não pode ser apenas um entertainer, tem que descobrir e dar sentido ao repertório que executa”, afirma ainda.

Nascido em 1957, Pierre-Laurent Aimard começou os estudos em Lyon, sua cidade natal, e, mais tarde, aperfeiçoou-se com Yvonne Loriod, segunda mulher do compositor Olivier Messiaen, e Maria Curcio, que teve entre seus alunos nomes como Martha Argerich, Radu Lupu e Mitsuko Uchida. O contato com compositores se deu ainda na juventude.

Além de Messiaen, ele trabalhou com Ligeti, Boulez (com quem participou da criação do Ensemble InterContemporain) e Stockhausen, fazendo, inclusive, a estreia de algumas de suas obras. Da mesma forma, tem sido, hoje, grande defensor do trabalho de autores como Tristan Murail (de quem fez a estreia do concerto Le Désenchantement du Monde), George Benjamin e Marco Stroppa.

O repertório tradicional, no entanto, também esteve presente em sua carreira. Com o maestro Nikolaus Harnoncourt e a Orquestra de Câmara da Europa, por exemplo, gravou uma elogiada versão dos cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven, além de se dedicar à obra de Mozart, Bach ou Schumann.

“O que me interessou, desde cedo, foi compreender o ato de criação. O criador busca a originalidade e acompanhar esse processo é um enorme aprendizado”, diz ele sobre o contato, desde o começo de sua trajetória, com grandes compositores.

E, em seguida, explica por que a mistura de repertório sempre lhe pareceu natural. “Para mim é inconcebível um intérprete que não se volte ao criador, àqueles que hoje se dedicam a pensar os caminhos da linguagem musical. Isso deveria ser uma prioridade. Afinal, o que dá sentido à música e, principalmente, ao trabalho do intérprete, é justamente a conjugação, o diálogo, da tradição com o novo. É isso que tento mostrar.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.