(Idéia salvadora de como esvaziar presídios)

Como acontece todos os anos, meu amigo Roger, embaixador de Avilã, veio passar as férias no Brasil e, como sempre, cheio de novidades. Ao ler nos jornais a calamitosa situação de nosso sistema penitenciário, abarrotado de perigosos hóspedes, ele saiu-se com esta:

– Vocês deviam fazer como nós. Acabamos de descobrir uma fórmula simples, mas que vai funcionar. Aliás, nada temos a perder, já que a situação presente é pior do que qualquer outra solução que possamos encontrar… Ou seja: pior não vai ficar.

Então, contou-me que em Avilã as penitenciárias estão entupetadas de bandidos e são palcos de freqüentes rebeliões, que têm como resultado a destruição das instalações, em que se matam agentes carcerários e, em suma, dão um prejuízo brutal, insuportável para a Administração Pública. Mal se consegue reconstruir os presídios, e lá vem outra rebelião, e outra, e mais outra, e outra mais… Uma fuga aqui, outra mais ali, e outra acolá… Cavam túneis. Usam celulares. Possuem armas de grosso calibre. Um inferno!

– Mas, como os detentos conseguem fazer tudo isso? indaguei. Eles não são acorrentados nos calcanhares e algemados nos punhos? Como é que conseguem cavar túneis desse jeito? De onde vêm armas e celulares, se o parlatório do presídio não permite qualquer contato físico com advogados e visitantes? Além disso tudo, para que serve a revista depois das visitas íntimas e entrevistas?

– Xi…, meu amigo, nem lhe conto! Houve um tempo em que os presos eram submetidos a correntes nos calcanhares e na cintura, além de algemas nos pulsos. Nessa época, nunca se ouvia falar em escavação de túneis, rebeliões e fugas. Mas, depois vieram os lobbies do pessoal dos "direitos humanos" e acabaram com tudo. Veja no que deu essa mania de paternalismo! Ah! Visitas íntimas foram conseguidas à custa de muita briga e até assassinato de agentes penitenciários. Por outro lado, os advogados não aceitam, definitivamente, ser revistados. Além disso, a corrupção nesse meio tornou-se generalizada, incontrolável. O resultado aí está…

– E então? Qual é a idéia salvadora? Você quer matar-me de curiosidade?

– Não vou contar! A não ser que você me prometa, me jure de joelhos, que não irá publicar nem uma linha, sequer, do que lhe vou narrar. Isso não é brincadeira, não, meu amigo! É segredo de Estado! Se você escrever algo sobre isso, nós – eu e você – vamos correr sério perigo. Tanto um lado, como o outro, podem ter interesse em nos eliminar por entender, cada qual, que poderá ser prejudicado com a missão ou com o cancelamento dela. Isso poderia acontecer, no caso de vazamento de informações sobre esse projeto governamental, que foi batizado com o nome de Plano Bush…

– Você quer é me matar de curiosidade! Pois, eu prometo. Prometo e juro! Não vou escrever uma linha sobre o assunto… Mas pelo amor de Deus! conte logo qual é o plano ou idéia redentora ou projeto ou o que for!

– Pois é, disse Roger, calmamente… Vamos esvaziar, literalmente, os presídios e as cadeias. Vamos vestir cada um deles (os detentos) com uma farda e mandá-los todos para o Iraque, para auxiliar nas operações de ocupação…

– Então, perguntei, o Plano Bush não tem nada a ver com o presidente Bush, mas com "bucha" de canhão… Os pobrezinhos vão servir de bucha de canhão na guerra do Iraque, não é mesmo?

– Não, senhor! reagiu Roger, rugindo como um leão ferido. Eles vão lutar por uma causa nobre, vão promover a paz mundial, ajudando a matar, no ninho, a cobra do terrorismo… em vez de ficar em nosso reino, promovendo desordens e dando prejuízo à sociedade…

– Vocês estão loucos! disse eu. As forças armadas vão protestar! Os órgãos de proteção dos direitos humanos levarão vocês às barras dos tribunais internacionais. Isso é um desatino! Haverá uma guerra intestina, uma revolução!

– Nada disso, disse Roger. Você não sabe como é que a CIA, nos Estados Unidos, arregimenta elementos para suas "missões especiais"? É nos presídios de segurança máxima que eles vão buscar os candidatos mais credenciados para serem treinados para tais missões. E ninguém reclama… Mesmo porque ninguém fica sabendo…

Albino de Brito Freire, juiz aposentado, é da Academia Paranaense de Letras.