Abril de 1992. O Brasil acompanhava as primeiras denúncias que desembocariam no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, preparava-se para as Olimpíadas de Barcelona e para a ECO-92, a conferência mundial do meio ambiente. No Paraná, um crime bárbaro domina as páginas dos jornais e o noticiário televisivo: após desaparecer em Guaratuba, no Litoral, um menino de 6 anos tem o corpo encontrado sem as mãos, pés, vísceras e o coração. Tudo indicava que Evandro Ramos Caetano havia sido morto em um ritual de magia.

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Foi o início de uma investigação que acabou envolvendo políticos locais, teve o mais longo júri da história do Brasil e até hoje não foi totalmente esclarecido. Vinte e sete anos depois, o episódio das “bruxas de Guaratuba”, como ficou conhecido, voltou a ficar em evidência graças à internet. Criado pelo designer gráfico Ivan Mizanzuk, o podcast O Caso Evandro foi ao ar em outubro do ano passado e se tornou um fenômeno de audiência. Recriando detalhadamente o caso desde seu início, o podcast atingiu na semana passada a marca de 4 milhões de downloads e em breve vai virar livro e série de televisão.

Todo esse sucesso é fruto de um trabalho que começou em 2011, quando a palavra podcast ainda era uma incógnita para a maioria das pessoas. Naquele ano, Ivan Mizanzuk iniciava o Anticast, programa que inicialmente falava de design – área de formação dele na qual ele leciona –, depois passou a falar de política e outros assuntos. O passo seguinte foi a criação, em 2014, do Projeto Humanos, dedicado a contar “histórias reais de pessoas reais”. Após três temporadas bem-sucedidas, ele resolveu tirar da gaveta uma ideia antiga.

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“O Caso Evandro era um desejo antigo porque eu vivenciei aquilo, eu era criança na época e foi algo que me marcou muito, ficou no meu imaginário”, contou Mizanzuk à reportagem. No início de 2015, ele começou a pesquisa sobre o caso, reunindo todos os autos do processo judicial, material veiculado na imprensa e entrevistas com os vários envolvidos no episódio. “Foram dois, três anos de pesquisa. Foi algo trabalhoso porque as peças estavam muito dispersas e o meu interesse era contar a história com todos os fatores que fazem parte dela”.

Em 31 de outubro do ano passado, foi ao ar o primeiro episódio. No podcast, Mizanzuk faz a narração dos fatos, intercalando-a com depoimentos colhidos por ele mesmo ou retirados dos processos, de programas de rádio e televisão. Com uma narrativa que envolve o ouvinte, o programa esmiúça todos os detalhes da investigação. “Casos criminais costumam chamar a atenção e esse tem todos os elementos que envolvem o gênero true crime, com mistérios e reviravoltas. Por isso, eu tinha noção de que iria fazer um certo barulho”, diz o criador, sobre o estrondoso sucesso que se seguiu.

Dividido em seis partes, O Caso Evandro dedica cada uma delas a um tema específico do caso. Na última semana foi disponibilizado o episódio 24, encerrando assim a Parte 4. Agora, o podcast entra em um intervalo, para que Mizanzuk produza os episódios das duas partes restantes, a serem liberadas ainda neste ano. Serão entre três e seis episódios novos, e ele promete revelar suas conclusões sobre o caso. “No último episódio vou dizer o que eu penso”.

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Da internet à TV

O sucesso alcançado pelo podcast fez com que O Caso Evandro siga agora para outras plataformas. Há algumas semanas, Mizanzuk anunciou que negociou os direitos do podcast com a produtora Glaz Entretenimento, responsável, entre outras produções, pelas séries Cine Holliúdy, em cartaz na Globo, e Irmão do Jorel, do Cartoon Network. “No final de 2017, a Mayra Lucas, da Glaz, conversou comigo e disse que a história tinha potencial para se transformar em uma série. Antes mesmo do podcast ir ao ar, os direitos já estavam vendidos”, conta o designer. A produtora ainda negocia o player (televisão ou streaming) para exibição.

O que já está certo é que a direção da série ficará a cargo do principal nome do audiovisual paranaense na atualidade: Aly Muritiba, diretor de Ferrugem, filme vencedor do último Festival de Gramado, e um dos diretores da série Carcereiros, da Globo. Mizanzuk, por sua vez, vai coordenar a adaptação junto aos roteiristas. “Como a pesquisa é minha, vou trabalhar vendo o que entra e o que não entra. Como eu quis contar a história de uma maneira bem aprofundada, e na série existem limitações, vou estar junto para poder ir monitorando”. Também já está definido o lançamento de um livro sobre o caso Evandro, escrito pelo próprio Ivan Mizanzuk, a partir de sua pesquisa. A obra deve ser lançada até outubro de 2020 pela Editora Harper Collins.

Em meio a todos esses trabalhos, o Projeto Humanos ficará de lado? Negativo. “Já estou pensando na próxima temporada, tem duas ou três histórias que me chamaram a atenção e agora estou vendo como viabilizar”, conta. A ideia de Mizanzuk é buscar apoio financeiro, para que seja possível contratar pessoas para auxiliar na pesquisa e produção. A expectativa está no sucesso não somente de O Caso Evandro, mas do formato podcast. “Quando vemos veículos grandes investindo em podcasts, dando estrutura e dedicando tempo para isso, é um sinal de que o formato está crescendo e tende a crescer ainda mais”.

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Relembre o caso das “bruxas de Guaratuba”

Evandro Ramos Caetano, de seis anos, desapareceu no caminho entre a escola e sua residência em Guaratuba, no Litoral do Paraná, em 6 de abril de 1992. O corpo foi encontrado cinco dias depois em um matagal. As vísceras e o coração tinham sido retirados e as mãos e os pés tinham sido cortados. Em julho do mesmo ano, sete pessoas foram presas e confessaram que usaram o menino em um ritual de magia.

O ritual, segundo denúncia do Ministério Público, teria sido encomendado por Beatriz Abagge e a mãe dela, Celina. Elas eram, respectivamente, filha e esposa de Aldo Abagge, prefeito de Guaratuba à época. Acusadas pela promotoria pública, elas foram a julgamento pela primeira vez em 1998, naquele que foi o júri mais longo da história da Justiça no Brasil – 34 dias. Na época, mãe e filha foram consideradas inocentes porque não ficou comprovado que o corpo encontrado desfigurado em um matagal era de Evandro.

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O Ministério Público recorreu da decisão e pediu um novo julgamento, alegando que a perícia da arcada dentária e o exame de DNA provavam que o corpo era do menino. Quase um ano depois, em março de 1999, o júri que absolveu Beatriz e Celina foi anulado pelo Tribunal de Justiça do Paraná.

Beatriz foi condenada por homicídio triplamente qualificado: por motivação torpe (promessa de recompensa a terceiro), meio cruel e porque a vítima foi morta quando se encontrava indefesa. Durante todo o julgamento de 2011, a defesa sustentou que Beatriz foi torturada para confessar o crime, mostrando inclusive vídeos para comprovar o argumento. Em 2016, ela recebeu o perdão da pena com base em um pedido de indulto, concedido a pessoas condenadas a mais de oito anos de prisão que tenham, entre outros requisitos, filhos menores de 18 anos. Beatriz tinha uma filha de 15 anos à época. Já para a mãe, Celina, o crime havia prescrito porque ela já tinha 70 anos durante o julgamento. Quando o réu tem 70 anos ou mais o prazo de prescrição, que é de 20 anos, cai pela metade e na época do julgamento, em 2011, o crime já datava de quase duas décadas atrás.

Outros envolvidos no crime também foram julgados: Osvaldo Marcineiro, Vicente Paulo Ferreira e Davi dos Santos Soares foram condenados em 2004. Duas pessoas foram absolvidas.

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