No ano passado foi a mesma coisa. As equipes dos filmes vencedores são convidadas para a premiação. Os jornalistas ficam anotando quem entra. Em 2017, na hora da Palma de Ouro, faltava só Ken Loach subir ao pódio. Ele ganhou, por Eu, Daniel Blake – sua segunda Palma. Este ano, o sueco Ruben Ostlund foi dos primeiros a chegar. Todo mundo foi ganhando seus prêmios. Mesmo assim, quando a deslumbrante Monica Bellucci perguntou ao presidente do júri, Pedro Almodóvar, quem levaria o prêmio maior e ele respondeu – The Square -, Ostlund deu um pulo e gritou – “Yes!”

Sim, sim, sim. Havia, talvez, filmes melhores na competição, mas pouca gente duvidava que o sueco e o francês 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo, seriam premiados. 120 Batimentos ganhou, no dia anterior, o prêmio da crítica. O júri de Almodóvar outorgou-lhe seu Grand Prix. Na coletiva do júri, Pedro chorou ao falar do filme de Campillo. A Palma foi para o sueco – nem Ingmar Bergman recebeu o prêmio na competição. Venceu uma Palma honorária, no centenário do cinema. Só Alf Sjöberg, em 1951, venceu com Senhorita Júlia, e naquele tempo ainda não havia Palma.

Ostlund tem a fama de enfant terrible. Seu filme envolve um comentário sobre as imposturas da arte moderna. O protagonista é diretor de um museu de arte. O tipo do cara progressista, politicamente correto, mas quando roubam seu celular ele deixa cair a máscara e reage como um troglodita. Como um jovem Michael Haneke, e na contramão de Loach, Ostlund não põe fé na humanidade. O título vem de uma instalação no museu. Na festa de inauguração, há uma performance – o artista confronta a plateia com seu instinto. Imita um macaco. É o momento divisor de águas de The Square. É pegar ou largar.

Além do prêmio de direção para Sofia Coppola, o júri outorgou prêmio especial do 70º aniversário para Nicole Kidman, que tinha dois filmes na competição (The Beguiled e A Morte do Cervo Real), mais um em apresentação especial (a série Top of the Lake – China Girl).

Joaquin Phoenix recebeu o prêmio de melhor ator pelo poderoso thriller You Were Never Really Hear, e a diretora escocesa Lynne Ramsay dividiu o de roteiro com o grego Yorgos Lanthimos, de A Morte do Cervo Real. O prêmio de melhor atriz foi para Diane Kruger, por In the Fade, de Fatih Akin. A bela Diane não foi realmente a melhor, mas o júri foi seduzido por sua mãe coragem. O marido e o filho são mortos num ataque do terror (neonazistas). O tema “terror” atravessou o festival, mais no cotidiano (medidas excepcionais de segurança) do que na tela. Os filmes discutiram o estado do mundo – refugiados, crise da classe média, a Rússia de Putin. Se você acha que o Brasil virou um purgatório, a Rússia é o inferno. A prova é Loveless , de Andrey Zvyagintsev, que ganhou o prêmio do júri.