Que a profissão de jornalista envolve riscos é uma verdade indiscutível. Freqüentemente, nas linhas de tiro em guerras e confrontos, driblar o medo é prerrogativa da profissão. Mas quando a briga pelo furo de reportagem se converte na busca desenfreada pela denúncia e repórteres fazem as vezes de detetives, essa unanimidade mascara uma polêmica.

O assassinato do repórter Tim Lopes, da Globo, que apurava denúncias de corrupção de menores num baile “funk” em uma favela carioca, provocou a manifestação de autoridades e entidades de classe contra uma suposta “censura à liberdade de imprensa”. Poucas vozes dissonantes ousaram, no entanto, questionar os padrões do telejornalismo investigativo que se pratica no Brasil.

O diretor da Central Globo de Jornalismo, Carlos Henrique Schroder, afirmou em nota oficial que Tim Lopes “morreu em pleno exercício da profissão”. Mas Tim não foi ao baile “funk” com bloco de notas, gravador ou câmera na mão. O premiado repórter utilizava uma microcâmera oculta, sofisticado apetrecho que cada vez mais aproxima repórteres de detetives e espiões. Para Renato Machado, apresentador do “Bom Dia Brasil”, o fato não aumentou os riscos do repórter. “Numa guerra declarada, apresentar-se como jornalista é garantia. Mas esta guerra é diferente”, avalia. O repórter Marco Uchôa, da Globo, tem outra opinião: “Eu tenho muito medo da câmera escondida. Prefiro fazer um acordo ético com as pessoas”, defende.

Reféns da imagem

Marco reconhece, no entanto, que a necessidade de apurar uma pauta a qualquer custo leva jornalistas a enfrentarem este e outros riscos. “Somos reféns da imagem”, sentencia. Ao disponibilizarem recursos técnicos para gravação sem o conhecimento da fonte, as emissoras acenam com a possibilidade da apuração disfarçada, mas nem sempre observam as condições de segurança. Goulart de Andrade, que apresenta o “Comando da Madrugada” na Band, lembra uma matéria que fez para o “Globo Repórter” sobre a falta de controle na venda de armas. Em plena ditadura, ele foi ao Rio de Janeiro comprar uma metralhadora que serviria de prova. “Eles me largaram com aquilo no aeroporto. Eu tinha que me virar e levar para São Paulo”, revela o jornalista, que prudentemente deixou a arma para trás.

Muitos lembram que a decisão sobre os recursos utilizados na apuração de uma matéria passa necessariamente pelo repórter. “Nenhuma emissora jamais me obrigou a correr riscos. Sempre foi uma decisão conjunta”, afirma Roberto Cabrini, da Band, que se destacou pela localização de PC Farias e da fraudadora Jorgina de Freitas. Domingos Meirelles, apresentador do “Linha Direta”, da Globo, concorda que a decisão final é do repórter. “É ele que percebe as circunstâncias, decide que recursos usar e que precauções tomar”, defende o jornalista, que se orgulha de ter sido um dos primeiros a utilizarem a microcâmera no Brasil. Atualmente em Nova Iorque, de onde comanda o “Manhatann Connection”, do GNT, Lucas Mendes lembra que, lá, um repórter não precisa nem mesmo entrar num helicóptero se tiver medo. “Um repórter faz isso porque quer. Por instinto, pela paixão pelo trabalho”, pontifica.

Limite e banalização

Ainda que seja uma decisão pessoal, não se pode negar a responsabilidade da emissora quanto à segurança do repórter. Marcelo Rezende, que no final do mês estréia na Rede TV!, lembra que as microcâmeras trouxeram novas e importantes possibilidades para o jornalismo investigativo, mas foram banalizadas, o que tornou sua utilização ainda mais perigosa. “Criou-se uma visibilidade que elas não deveriam ter, pois passaram a ser utilizadas para tudo: de guardas multando no trânsito a fiscais no ponto”, critica. Bóris Casoy, que comanda o “Jornal da Record”, defende a utilização de todo tipo de recurso técnico em função das circunstâncias, mas ressalva: “Eu condeno o contato do jornalista com a criminalidade. Não é papel dele ir ao morro entrevistar bandido procurado pela polícia”, pondera.

Por trás da notícia

Muitos repórteres investigativos desafiam diariamente o perigo. “É da natureza do jornalista correr riscos”, explica Renato Machado. Domingos Meirelles chegou a sair do Paraguai sob proteção diplomática quando realizava uma reportagem sobre roubo de carros para o “Globo Repórter”. “Cumpri minha função social”, orgulha-se, lembrando que a reportagem motivou o governo brasileiro a assinar um acordo com o Paraguai para a devolução de carros roubados.

O retorno da sociedade também é destacado por Roberto Cabrini. “É uma questão pessoal. Depende de até que ponto você acredita na profissão”, lembra Cabrini, que foi seqüestrado junto com a equipe no Afeganistão e trouxe as imagens graças a uma microcâmera oculta. Em 1999, Marco Uchôa passou dois meses de “agonia profunda”, tentando convencer o policial Rambo, da Favela Naval, a conceder uma entrevista ao “Fantástico”. Mas o resultado valeu a pena. “Ninguém é super-homem. Eu preciso estar tranqüilo para enfrentar minha rotina de trabalho”, explica. José Luiz Datena, que comanda o “Repórter Cidadão” na Rede TV!, trabalha há quatro anos com jornalismo de denúncia e recebe freqüentes ameaças por telefone. “Sabendo dos riscos, ninguém faz isso por dinheiro, mas por idealismo”, avalia.

Jurados de morte

# No ano passado, Tim Lopes passou uma semana com uma microcâmera oculta no Complexo do Alemão, que engloba a Favela Vila Cruzeiro, onde foi morto. A matéria “Feira de Drogas”, exibida no Fantástico em agosto de 2001, rendeu ao repórter e sua equipe o Prêmio Esso Especial de Telejornalismo, no valor de R$ 10 mil.

# A repórter Cristina Guimarães, que participou da equipe de Tim, está jurada de morte pelos traficantes. Cristina, que atualmente vive escondida, deixou a Globo e move contra a emissora dois processos, um trabalhista e um por danos morais.

# Em 2001, 51 jornalistas foram mortos no mundo no exercício da profissão. O Memorial do Fórum da Liberdade, em Washington, tem registrados os nomes de 1446 jornalistas assassinados desde 1812.

# O “Fantástico” do último domingo, quase inteiramente dedicado à cobertura do assassinato de Tim Lopes, registrou média de 34 pontos de audiência.

# Uma série de reportagens elaboradas por Tim Lopes que teve boa repercussão no “Fantástico” foi a que colocava criminosos encarcerados frente a frente com suas vítimas ou parentes delas.