Fazia muito tempo que não nos encontrávamos. Surpresa para todos nós… Maria de Lourdes, seu companheiro de muitos anos e sua filha.

Minhas filhas, genro, bisneto e talvez uma centenas de convidados se comprimiam naquele pequeno salão. Estava muito divertido: quase todos já se conheciam ou conheceram-se ali mesmo.

Brincadeiras, cantorias, doces. Também uma montanha de presentes que foram depois distribuídos para crianças. Era Dia de Reis.

Um burburinho gostoso, misturado com cantorias e risadas.

A reunião estava muito animada, mas o dia, pra mim, fora um tanto cansativo. Ao chegar em casa, procurei deitar em seguida. E, ao me acordar na manhã seguinte, lembrei como num estalo: foi, talvez, no anos cinqüenta, que surgiu na imprensa uma história de um assaltante que assaltava só à noite, usando uma lanterna com luz vermelha.

Mas também contavam que ele era gentil com as mulheres que ele assaltava… Lógico que as pessoas tinham receio.

Passado muito tempo, um dia os jornais anunciaram que o tal ?bandido da luz vermelha? havia sido capturado e preso… De repente, a notícia de que ele fora assassinado pelos próprios presos.

Maria de Lourdes, minha amiga, era um tanto mandona, mas convivia com carinho com Norival. Até que um dia, aconteceu um desentendimento muito sério, e os dois partiram para a grosseria!

?A coisa ficou muito feia? e Maria saiu às carreiras de casa, carregando apenas a bolsa com algum dinheiro. Sem olhar a placa do ônibus que passava, ela subiu e só então percebeu que estava com o vestido encharcado de sangue. O motorista parou próximo a um ponto de táxi, que a levou a um hospital. O sangue borbulhava de uma tesourada na barriga! Alguns dias hospitalizada, muitos cuidados. Seu marido havia abandonado a casa (pudera!). E, aos poucos, a vida foi seguindo o seu rumo. Maria era uma ótima artesã. Sua casa era uma verdadeira oficina e o dinheiro entrava. De repente, buquês de flores eram endereçados para Maria… Sem cartão, sem nome. Quem seria?

Tempos depois, um outro fazia de tudo para ser notado: onde ela estava, lá estava o tal camarada. Com os dias ele foi tomando coragem e acabaram juntos. Era ele quem mandava as flores… Norival sempre rondando.

De acordo com Maria de Lourdes, o tal fazia de tudo para conquistá-la: nunca se recusou atender fosse o pedido que fosse. Até no colo ele a carregava. Muito tempo depois, sentindo-se seguro, ele confessou que foi integrante da quadrilha do ?bandido da luz vermelha?.

Passados alguns meses Norival voltou. Estão juntos até hoje. Quase trinta anos!

Margarita Wasserman, escritora e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.