O diretor fez de sua musa,
Uma Thurman, uma assassina implacável.

Quentin Tarantino, enfim, mistura seu universo realista ao mundo fantástico do cinema. O resultado? Personagens de carne e osso típicos de seus Pulp fiction – Tempo de violência (1994) e Jackie Brown (1997) dentro de um cenário que reúne os mais variados gêneros cinematográficos (violentos, claro), como bangue-bangue à italiana, artes marciais chinesas, samurais japoneses e anime. Tudo com direito a jatos e jatos de sangue jorrando de cortes, mutilações e contusões.

“Kill Bill é o primeiro filme que fiz que se passa no ?mundo do cinema?. Sou eu imaginando o que aconteceria se esse mundo realmente existisse”, explica Tarantino no material de divulgação do filme. “Este filme não se passa no universo em que vivemos. Lá as mulheres não são o sexo frágil. Elas possuem exatamente os mesmos instintos predatórios que os homens, o mesmo impulso assassino”. Esse universo alternativo de um dos diretores mais cultuados da América está lá, em Kill Bill: Volume I, que estréia nos cinemas brasileiros no próximo dia 23 sob grande expectativa – mesmo para aqueles que já viram em ótima cópia na internet ou mesmo em DVDs americanos ou piratas, afinal, cinema é cinema. Já a segunda parte, só dia 22 de outubro aqui no Brasil, enquanto os americanos já assistem nesta sexta-feira. O filme, originalmente criado para ser único, acabou dividido em duas partes por sugestão da distribuidora. Sugestão que nada estragou o clima.

Nele (ou neles, no caso do filme completo), Tarantino mergulha na sua infância e na adolescência e traz de volta filmes de kung fu das décadas de 60 e 70, personagens de Akira, Bruce Lee e menininhas colegiais (uma das taras japonesas). Do cinema contemporâneo, recria lutas ao estilo Matrix, mas sem efeitos de computação e com muito sangue ( fake propositalmente e bem melhor que aquela pancadaria limpinha do filme estrelado por Keanu Reeves).

Kill Bill é uma resposta para quem pensava que Tarantino não conseguiria mais usar a receita que fez dele uma referência do cinema nos anos 90. Desde Jackie Brown, o diretor mergulhou num limbo que levantou rumores sobre sua carreira e seu talento. Seis anos se passaram (o filme teve estréia mundial ano passado) e agora ele volta com uma produção considerada a mais violenta de toda a história do cinema americano. E mais uma vez, uma violência “taratinesca”, aquela quase caricata.

Uma Thurman

O diretor, que se tornou famoso pelos seus trabalhos sobre o submundo sempre mesclados de doses de humor e violência, lança agora um épico que mostra a busca por justiça de uma ex-assassina, interpretada por Uma Thurman. Ela é a Mamba Negra do grupo de elite denominado Esquadrão Assassino Víboras Mortais, o Divas, organizado pelo Bill do título, seu ex-namorado. No dia do ensaio de seu casamento, “A Noiva” (como também é conhecida e curiosamente não é chamada pelo nome verdadeiro momento algum), que está grávida, é vítima de um ataque de Bill e das “víboras” mas acaba não morrendo. Entra em um coma profundo e acorda quatro anos depois disposta a se vingar de um a um a golpes de faca e de uma afiadíssima espada de samurai. Sua vingança começa no “Volume I” e a matança continua no segundo.

A falta de diálogos no “Volume I” pode surpreender alguns mas não faz tanta falta. Ao que tudo indica, a segunda parte deverá ter bem mais falada, de preferência, com papos bem humorados e com a inteligência mórbida, típica de Tarantino. Afinal, ele precisa dar muitas explicações aos seus espectadores depois de deixar uma importante pergunta no ar antes de cortar a parte 1 do filme, dando um gostinho de “quero mais” para “as cenas do próximo capítulo”.