Rafaela Lisboa, que vive pela segunda temporada seguida a Aline em Malhação, tem uma oportunidade rara nas mãos: a chance de elaborar durante quase dois anos um personagem. Mas a possibilidade de amadurecer mais o personagem e mesmo de se aperfeiçoar como atriz tem, como tudo na vida e segundo ela própria, um aspecto positivo e outro negativo. "É legal, você tem mais o personagem nas mãos. Por outro lado, como há muitos personagens na trama, às vezes ela fica sem história, fica meio rotineiro em algumas situações", pondera.

Um outro ponto positivo da personagem é que, aos poucos, ela foi sofrendo uma transformação na trama. Quando chegou ao colégio Múltipla Escolha, no início de 2004, a Aline era a típica "CDF". Extremamente estudiosa e responsável, só queria saber dos livros. A temporada 2005 de Malhação, porém, foi revelando uma Aline que nem a própria Rafaela suspeitava existir. A outrora tímida aluna, hoje, já pensa quem diria? até em namorar! "É ótimo, porque mostra um outro lado dela, não apenas aquela pessoa estudiosa, mas um ser humano que também sorri, como qualquer pessoa", observa.

Esse lado mais descontraído que a Aline vem mostrando na telinha é, sem dúvida, mais parecido com o temperamento da atriz. "Nossa! Nós somos opostas!", salienta. Morando sozinha desde os 16 anos de idade, quando chegou ao Rio de Janeiro para viver a jovem escrava Brasa na novela A Padroeira, de 2001, Rafaela ainda hoje sofre com as responsabilidades de ser uma precoce dona de casa. Problema pelo qual, certamente, a detalhista e metódica Aline não passaria. "Eu sou desorganizada. Quando você vai morar sozinha, tem que ter uma estrutura e eu falho nisso. Mas é legal ter que superar tudo sozinha, a gente cresce bastante", orgulha-se.

Mais do que a experiência de ter que morar sozinha tão cedo em uma cidade nova e superar todos os obstáculos, a própria participação em "A Padroeira" acabou se tornando um fato marcante na vida da atriz. A bela negra, hoje com 21 anos, garante que nunca sofreu nenhum tipo de discriminação. Mas àquela altura, então com 16 anos e sob a fragilidade de tantas mudanças, ela confessa ter sentido o peso dramático do papel. "Foi muito louco. Quando acabou a novela eu entrei em parafuso, senti a carga dramática daquele tempo, de haver escravos. Fazer uma escrava me deixou muito mal", recorda.

Antes de passar no "vestibular" que a levou até a televisão, a vida de Rafaela foi de um extremo a outro. Até o início da adolescência, vivia com os avós na pequena cidade de Guaíra, no Paraná. Até que a mãe foi buscá-la para morar em São Paulo, em plena Avenida Paulista, centro nervoso da capital paulista e do próprio país. Nada que assustasse a atriz que, então com 13 anos, começou a estudar teatro graças ao incentivo do padrinho Chicão. "Eu fui fazendo alguns testes, alguns trabalhos com publicidade. Até que o Walter Avancini e o Luiz Antônio Pilar viram um dos testes e me chamaram para trabalhar em A Padroeira, conta.