Ritual para receber visitantes. Foto de Ednelson Pereira (Makuxi)

No século XX, a convivência com os brancos se acentuou e permitiu aos Kagwahivas estabelecer relações com seringueiros, colonos, mineradores, madeireiros, agentes dos órgãos governamentais e não-governamentais. Uma maior variedade de povos indígenas passaram a fazer parte das relações cotidianas dos Parintintins. Estas criaram condições para uma releitura da ?categoria Outro?, como afirma Angela Kurovski em sua pesquisa de conclusão de mestrado, apresentada na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 21 de março de 2005, com a orientação dos professores doutor Marcos P. D. Lanna e Andréia de O. Castro.

Hoje os Parintintins dançam forró, boibumbá e irerupukuhu (dança antiga com flautas de canos). Angela relata que ?são fascinados em adquirir as coisas da sociedade nacional e reproduzir comportamentos dos regionais, mas com a preocupação de não deixar em segundo plano o que eles chamam a nossa cultura.?

Quando o cacique Domingos Parintintim diz: ?hoje estamos lutando para recuperar nossas coisas, nossas histórias?, isto significa, diz Angela, que ?os Parintintins, a exemplo de seu herói civilizador Mbahira, se mostram dispostos a serem os protagonistas de sua história, indo em busca dos bens civilizatórios, quer pela lógica da predação simbólica, quer forçando a generosidade generalizada do Outro, com os quais convivem.? Na visão dos Parintintins as relações com os brancos foram pautadas no campo da reciprocidade negativa, ?roubaram nossa língua, nossos conhecimentos?, uma dívida histórica a ser resgatada, a ser sanada pela retomada dos conhecimentos da sociedade envolvente.

Nas antigas classificações Kagwahivas, a humanidade estava dividida em dois pólos ?Nós (Kagwahivas) e Outros (Tapys).? Existe uma linha tênue que separa aliados de inimigos, e o ato de fazer aliança, para os Parintintins, é caracterizado pela troca de alimentos. Em determinada ocasião presenciei um frango ser abatido e dividido por mais de dez famílias. ?Os pratinhos circularam pela aldeia com um pouquinho de caldo e pedacinhos de carne?, comenta Kurovski.

Para os Kagwahivas do Rio Madeira, no Amazonas, não é possível relação sem troca de dádivas. Caso isso não ocorra, são acionados outros mecanismos que garantam sua realização. A pesquisadora explica que negar algo, não ser generoso na distribuição de bens e saberes é criar um inimigo em potencial. Os Parintintins afirmam que a prática de guerra é coisa do passado. Mas, a ?ritualização da guerra, como meio para forçar a troca, ainda continua norteando as relações estabelecidas com o Outro?.

A dualidade generosidade/predação continua operando nas relações que os Parintintins estabelecem com os brancos. A predação é simbólica e se expressa na apropriação do saber, dos bens manufaturados dos brancos, das tecnologias, das festas que os Parintintins tomam para si, construindo novas subjetividades, explicita a antropóloga.

Possuir conhecimentos de informática, microscopia, mecânica, dirigir carro, pilotar deslizador, além de desenvolver a capacidade de elaborar projetos financeiros, entre outras coisas, são alguns ?troféus? da contemporaneidade. Para a antropóloga, a identidade Parintintim se constrói no limiar entre a imagem que os Parintintins fazem do Outro e da representação que este Outro faz dele, mas ao mesmo tempo está fundamentada ainda nos antigos esquemas culturais.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. e-mail: zeliabonamigo@uol.com.br