Na última quinta-feira (1°) completa-se o vigésimo aniversário da morte de Ayrton Senna, considerado por muitos o maior herói nacional. Carismático com o público que o assistia pilotar seu Fórmula 1, o brasileiro era considerado um piloto de gênio difícil nos bastidores. O tricampeão mundial de Fórmula 1 começou sua carreira do kart, depois passou para provas de automobilismo.

O talento nas pistas fez com que Beco, como era conhecido, fosse sondado para participar da Fórmula 3, considerada a porta de entrada para a Fórmula. Não levou mais que duas temporadas para Senna fosse campeão e, em 1984, deixou os circuitos europeus para, literalmente, ganhar o mundo.

Naquele ano, ele vestiria os macacões da Toleman, equipe que em 1985 passaria a se chamar Benetton e seria, quase uma década depois, a casa do único piloto a altura de Senna, o alemão Michael Schumacher. A estreia de Senna não poderia ter sido melhor: o paulista debutou justamente no Grande Prêmio do Brasil, que aconteceu em Interlagos, em 25 de março. Apesar de ter largado em 16°, Senna acabou a prova como retardatário, algo incomum na carreira do brasileiro.

O venezuelano Johnny Cecotto, primeiro companheiro de equipe de Senna na F-1, revelou que o brasileiro era extremamente competitivo e não aceitava ser deixado em segundo plano. Essa rivalidade velada fez com que amizade deles sofresse abalados durante aquela temporada.

Consagração

Após esse começo turbulento, Senna teria dias melhores na Lotus, equipe que ingressou em 1985. Seria, justamente, atrás do volante francês que conquistaria sua primeira vitória em 21 de abril, no Grande Prêmio de Portugal. A devoção do povo brasileiro por Ayrton se tornaria lendária, nem mesmo Emerson Fittipaldi ou Nelson Piquet conseguiria arrebatar o público da mesma forma. E, até agora, não existe nenhum piloto tupiniquim tenha atingindo tamanha admiração.

Mesmo com o bom desempenho em pista, a consagração de Senna só viria em 1988, quando o piloto começou a fazer parte da McLaren. Foi também naquele ano que Beco conseguiria seu primeiro campeonato mundial na Fórmula 1. Sua dupla, o francês Alain Proust se transformaria também no seu maior rival. A guerra entre os dois acontecia dentro e fora das pistas.

Com o campeonato de 1988 nas mãos de Senna, Proust se viu obrigado a brigar pelo que achava seu: a equipe. Declarações controversas de ambos na imprensa, caras pouco amigáveis quando era fotografados juntos e o racha particular que disputavam nas pistas fez com que a possibilidade de dois gênios da Fórmula 1 fossem reduzidas a zero.

Da mesma forma que aconteceu com Cecotto, Senna não deixava brechas que permitissem a Proust uma competitividade saudável dentro dos boxes. A situação ficou ainda pior em 1989, quando o piloto francês faturou o tricampeonato. Por si só ter Proust campeão correndo ao seu lado já era motivo para deixar Senna resignado, mas saber que o companheiro de McLaren só conseguiu a vitória após tirá-lo da pista em uma manobra considerada antiesportiva deixava o brasileiro em um estado de espírito que misturava indignação e frustração. A partir daquela corrida, o que já não era bom se tornaria ainda pior.

Como se poderia imaginar, em 1990 o título só seria decidido na última prova. E quem seriam os protagonistas do espetáculo? Senna e Proust. Enquanto francês pilotava uma Ferrari, o brasileiro se consagrava como primeiro piloto da McLaren. Porém desta vez, foi Beco quem tocou no rival – a uma velocidade de 270 km/h –, o que faria com que os dois tivessem de abandonar a prova. Ainda assim, Senna conseguiu levar o título para casa. Em 1991, o campeonato mundial também seria do brasileiro.

Mudanças

A partir de 1992 a insatisfação de Senna com a equipe começou a ficar evidente. O motivo? A Williams começava a ganhar espaço com um carro melhor que o seu. O desânimo foi tamanho que Ayrton cogitou com alguma convicção migra,r para a Fórmula Indy. A bruxa parecia solta naquele começo de temporada. A primeira briga de Senna com a equipe foi motivada pelo atraso na entrega de um novo carro, que só aconteceria na terceira prova, o GP do Brasil.

Quando finalmente os pilotos puderam sentar no cockpit do modelo MP4/7ª, não foi difícil criar um catálogo de falhas e erros no projeto. Esse “descaso” deixava o tricampeão ainda mais frustrado e desaminado, colocando em xeque a sua permanência. Ainda que, com tantas dificuldades, Senna e seu parceiro, Gerhard Berger, conseguiram fazer duas voltas mais rápidas e vencer cinco provas naquela temporada.

Com esse resultado, considerado pífio – principalmente por Ayrton -, a saída do brasileiro era só questão de tempo. A Williams era a opção mais certa naquele momento, porém, havia um impedimento um tanto diferente. Proust, que estava na equipe de Ron Dennis, tinha uma cláusula em seu contrato que impedia que a equipe também contratasse Senna. Por isso, em 1993, Beco ainda continuaria, mesmo que insatisfeito, pilotando a McLaren.

Nova casa

Quem assistiu ao documentário “Senna” pode ver que Proust não esconde a sua mágoa com o brasileiro e confirmou que realmente a cláusula existia. Entretanto, uma brecha no contrato, que deixava a restrição apenas ao ano de 1993, fez com que a Williams pudesse contratar o tricampeão. Como consequência, o francês anunciou a sua aposentadoria um ano antes de seu contrato terminar.

Mas o que Senna encontrou na nova equipe não foi uma casa tão arrumada quando esperava. Em partes, a crise se deveu às mudanças propostas pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), que pretendia deixar os carros mais “humanos”, colocando de lado alguns aparatos eletrônicos, o que significava menor segurança.

Naquela temporada a Williams já tinha estabelecido a sua maior concorrente: a Benetton, que tinha no seu cockpit Michael Schumacher. Na primeira corrida de 1994, disputada no Brasil, Senna conseguiu a pole, mas acabou abandonando a prova depois de colidir com Mika Häkkinen. A prova seguinte, disputada no Japão, também teve Senna largando na ponte e envolvido em uma colisão na primeira volta. A terceira prova daquela temporada seria, justamente, aquela mataria Ayrton.

A morte

Os poucos que viram Senna antes de a prova começar afirmou que ele estava tenso. Os motivos que deixavam o piloto misturavam elementos de seu relacionamento com a modelo Adriane Galisteu e a morte de Roland Ratzenberger, que se perdeu em uma curva durante os treinos em Ímola, no dia 30 de abril de 1994, ou seja, a véspera da morte de Senna.

Em relação ao seu namoro com Galisteu, a família do piloto era contra e teria enviado a ele, em Ímola, uma gravação que atestava a traição da namorada. Se isso for verdade, Senna teria entrado em pista com a cabeça em tudo, menos em terminar vivo aquela prova. O suposto vídeo também serve de alicerce para uma outra teoria: a de suicídio.

Obviamente, nada disso é confirmado e, principalmente, a família desmente a versão de que Senna poderia ter morrido propositalmente. A versão oficial seria uma falha no carro que teria provocado a perda de controle do bólido e feito com que Ayrton se chocasse com a muralha de pneus na curva Tamburello.

A morte não só veio ceifar a vida do piloto como também interrompeu seus planos futuros, inclusive, a vontade de mudar de equipe. Incomodado com a dirigibilidade do seu Williams, que segundo pessoas próximas, chegava a machucar as mãos de Senna, ele havia conversado poucos dias antes de sua morte com a diretoria da Ferrari, tentando acertar uma possível troca de macacões. A ida de Ayrton para a escuderia italiana poderia significar dias melhores, já que a situação da equipe era complicada havia algumas temporadas. A salvação foi, na verdade, a entrada de Schumacher, em 1996, quando sentiu dificuldades de adaptação à nova equipe.

Luto

Quando a morte de Senna foi anunciada naquele tristemente inesquecível 1° de Maio cada brasileiro parece ter chorado junto – de emoção por presenciar a morte de uma pessoa em cadeia mundial de televisão e de raiva, por perder um herói, um símbolo nacional. Aquele domingo ficaria marcado como um dos dias mais tristes para o país, talvez se eq,uiparando ao 02 de março, quando morreram os Mamonas Assassinas em um desastre de avião.

Confirmada a morte e feita a burocracia para enviar o corpo para o Brasil, o caixão de Senna foi remetido em um avião Varig em Paris em um dos compartimentos da classe executiva. No mesma repartição estavam diversos jornalistas que não se incomodaram em voltar ao país ao lado do ídolo morto. No entanto, nenhum dos passageiros daquele voo soube que Ayrton Senna também estava no avião.

De acordo com os jornalistas que vivenciaram esse triste momento, como as duas divisões da classe executiva eram interpostas pelo local destina à tripulação e vedado por uma cortina, era impossível saber o que se passava ali. Para evitar que o segredo fosse descoberto, todos os passageiros desceram pela última porta da aeronave.

Na segunda-feira após a morte de Senna as escolas brasileiras homenagearam o piloto. Alunos desenhavam o rosto do ídolo, o carro pilotado por ele e fizeram um minuto de silêncio em honra a um homem que trouxe tantas alegrias ao país e fazia com que cada um de nós sentisse orgulho em ser brasileiro.