Ricardo, Emanuel e Fábio Elias:
a Reles de veias abertas.

Foram necessários catorze anos. Enfim, a Relespública, um dos maiores representantes do rock de Curitiba desde os anos 90, terminou de gravar seu primeiro álbum com a formação e sonoridade originais.

A banda, na verdade, já carrega outros quatro discos no currículo: um compacto em vinil 7 polegadas (1993, ainda com o vocalista Daniel Fagundes – que meses depois morreria aos 16 anos, num acidente de carro), um EP-Demo tosco, captado durante um show em 1996 e outros dois CDs (1999 e 2000, como quinteto e com a veia básica dos anos 60 tendo de disputar espaço com arranjos mais pesados, vocais elaborados e um certo quê de hard rock).

Por isso, As Histórias São Iguais, a partir desta semana estará sendo celebrado como o “verdadeiro” primeiro álbum da Reles. Lá estão apenas as guitarras de Fábio Elias (também responsável pelos vocais principais), o baixo de Ricardo Bastos e a bateria de Emanuel Moon. O único plus é a presença de clarineta em uma das onze faixas.

Convidados

Concluído na última terça-feira, o disco enfim está pronto. O grande charme é a homenagem à assumidíssima influência do Ira! – Nasi participa em duas faixas e o trio ainda gravou uma composição inédita de Edgard Scandurra. As negociações com um dos principais selos independentes do país já está adiantada e o lançamento está sendo programado para breve. O título foi extraído de um verso de uma das faixas (Nunca Mais). Capa e encarte trazem vários desenhos e vêm assinados pela loja Candyland, um dos grandes pontos dos quadrinhos alternativos da cidade. Logo após a conclusão do álbum, O Estado teve acesso a uma cópia. Por isso, você lê abaixo, em primeira mão, todos os detalhes das onze faixas de As Histórias São Iguais.

As Histórias… faixa por faixa

Os Garotos São Espertos: Música resgatada diretamente da primeira demo da Reles. Ressalta as raízes do rock, com um belo arranjo percussivo a la Buddy Holly (batida, por sinal, muito usada pelo Who quando a banda ainda se chamava High Numbers). Simples, cru, visceral. Baixo em escala pentatônica e Fábio se desdobrando com uma fender (solo limpo, sem distorção) e uma rickenbaker (base).

O Camburão: Herdeira direta do iê-iê-iê dos tempos da Jovem Guarda. A letra -que junta um monte de desculpas esfarrapadas para a namorada que logo pensa em traição – também lembra expressões e interpretações eternizadas por Roberto Carlos em seu clássico programa de TV. Segundo Fábio Elias, a faixa é o típico conceito de música popular clássica, trazendo identificação instantânea com qualquer tipo público, em qualquer lugar do país.

Boatos de Bar: Mais um resgate dos primórdios da Relespública. Começa com uma conversa indecifrável entre John Lennon e Paul McCartney e desencadeia em mais um arranjo com ênfase na seção rítmica. Fábio divide honrosamente seus vocais com o ídolo Nasi.

Nunca Mais: Um dos hits do disco. Apuro de melodia e harmonia irrepreensível, com direito até a um acorde em lá sustenido diminuto. Composta em uma sexta-feira de carnaval com Curitiba vazia e céu de brigadeiro, traz refrão matador e crescendo de microfonias no arranjo do disco. Fica impossível deixar de cantar “Se há uma luz/ Quero tocar/ Antes de nunca mais” logo depois da primeira audição.

Marcianos: Música sobre guerra que não fala em violência. Fábio usa da sabedoria e da ironia para induzir à reflexão ao simular uma conversa com extraterrestres que sabem viver em paz. Baladaça com violões (de seis e doze cordas), guitarras dobrando fraseados e o sopro melancólico do clarinetista curitibano Sergio Albach fazendo as vezes dos backings. Vai virar clássico nos shows da banda daqui por diante.

Eu Soul: “Little Richard tentando ser James Brown em uma banda punk”, conforme definição de Fábio, que gritou tudo o que tinha de gritar ao fazer a voz logo no primeiro take. Parceria entre o guitarrista e Daniel Fagundes, é cantada em inglês.

A Fumaça É Melhor que o Ar: Composição inédita de Edgard Scandurra. O Ira! a tocava em seus primeiros shows, em 1982, mas a canção acabou sendo engavetada para não acirrar mais a discussão entre São Paulo e Rio de Janeiro, que inflamava o underground das duas capitais naquela época. Nada melhor, então, do que colocar o próprio Nasi para cantar a faixa por inteiro – Bastos e Elias fazem apenas os backings de resposta para as provocações metropolitanas de Scandurra (“A fumaça é melhor que o ar/ E o frio é melhor que o calor”). O arranjo impresso pela Reles, porém, diferenciou-se um pouco do original, extraído de uma fita demo perdida na coleção de Fábio. Aqui as distorções lembram o Who de My Generation e a clave do final remete a Magic Bus.

Notícias: Composta durante o último período de transição da banda. A Reles havia acabado de retornar à Curitiba, após a experiência malsucedida de morar no Rio e do contrato rompido com a Universal. No dia posterior à chegada, Fábio Elias ligava a televisão pela manhã e assistia atônito à queda das torres do World Trade Center. Talvez seja a principal justificativa da fúria impressa nas guitarras – “tem muito de Jam e punk 77”, explica o músico. O final, com um indefectível “yeah, yeah, yeah”, faz conexões com o espírito lennoniano da letra. “John imaginava um mundo sem edificações para separar as diferenças. E eu mostro que só queria cantar que o mundo estivesse em paz”, completa.

Garoa e Solidão: Outra herança direta do punk de bandas como Jam, Buzzcocks e Undertones. Conexões estreitas com o Strokes, sobretudo no cruzamento entre a batida rápida e a guitarra no contratempo. Letra que questiona a apatia dos curitibanos por causa do clima frio da cidade. Hit indiscutível.

Sobre Você: Guitarra abolerada, versos excessivamente diretos e clima romântico no ar. Relespública brega? Fábio Elias dá uma justificativa mais profunda: “é uma música com total influência de Till There Was You (um dos boleros do repertório dos Beatles dos tempos de Cavern Club)”. Mesmo assim é um grande trunfo para o trio emplacar nas AMs, já que as barreiras impostas pelas emissoras de freqüência modulada parecem intransponíveis.

Essa Canção: Fim do disco, após 32 minutos. É a declaração de amor da Relespública ao ato de fazer música. Aqui o atrativo é a letra curta cantada duas vezes, com uma hábil modulação (de sol para lá) na metade. Encerramento com tchu-tchu-ru-rus e toda a energia da veia Who descarregada por Elias, Bastos e Moon.