Em dezembro de 1991, a Filarmônica de Viena instalou-se na St. Stephen’s Cathedral, na capital austríaca, para relembrar os 200 anos da morte de Mozart. Naquela noite, durante a missa realizada em homenagem ao compositor, a orquestra, regida por Sir Georg Solti, fez uma interpretação memorável do Réquiem (Missa dos Mortos), com um time de primeira de solistas (Auleen Auger, Cecília Bartoli, Vinson Cole e René Pape), lançada agora em DVD (Decca).

O Mozart do Réquiem é o Mozart do fim da vida – e a imagem do compositor morrendo sobre a partitura incompleta de uma das suas mais ambiciosas obras tem povoado, há mais de dois séculos, o imaginário dos amantes da música, envolvendo a peça em um tom quase místico. É como, dizem alguns, se Mozart estivesse escrevendo seu próprio Réquiem.

Muito do mistério em torno do Réquiem já se dissipou, como mostra o pequeno documentário editado como extra. Um exemplo: o cavalheiro misterioso que procurou o compositor, comissionando em nome de um patrão anônimo a peça – sabe-se hoje – era um emissário do Conde von Walsegg, habituado a encomendar peças para músicos célebres e, depois, tentar passá-las como criações suas.

Sabe-se também que, após a morte de Mozart, sua mulher Constance, interessada no dinheiro do Conde, pediu a um dos alunos do marido, Franz Xaver Süssmayr, que terminasse a peça. Süssmayr trabalhou sobre esboços de Mozart que teria, segundo Constance, indicado ao aluno, pouco antes de morrer, algumas de suas intenções. Se Mozart conversou mesmo com Süssmayr ou se o jovem estudante apenas tentou, por conta própria, seguir o que acreditava ser o espírito da obra, não se sabe ao certo. Mas é essa versão, preparada por H.C. Robbins Landon, a usada no DVD, que oferece duas possibilidades de audição: o Réquiem editado, sozinho, ou em conjunto com toda a missa celebrada para lembrar o compositor.