Conheci outrora, no país da infância, essa pátria comum de todos os homens, um sujeito muito estranho. Se bem me lembro, chamava-se Pablo. Mas seria Hernandez, Contreras ou Echeverria? Pouco importa. Era um cidadão de fala espanholada, nascido por certo num dos países que rodeiam o nosso. Sua barba estava quase sempre por fazer, rala com manchas esbranquiçadas, o colarinho da camisa sujo, a gravata ensebada, o terno cinza semeado de nódoas avermelhadas de vinho tinto, talvez os emblemas maiores da sua decadência pessoal. Tinha um jeito indisfarçável da ruína ambulante, na sua arquitetura física exterior, sustentada por dois pilares que tinham como base velhas botas decrépitas. Morava num quarto de uma pensão decadente, janelas tristes de cortinados rasgados dando para a exígua praça, corredores estreitos e, por toda a parte, um cheiro melancólico de mofo, pétalas de flores apodrecidas e latrinas mal lavadas.

Ninguém sabia de que recursos vivia o “senõr” Pablo. Assim ou assado, lá ia vivendo, ou sobrevivendo, aos trancos e barrancos. Vivia num estado de semi-entriaguez que se tornara crônico. No seu trânsito quotidiano pelas ruas e vielas do velho burgo interiorano, a meninada debochava do infeliz. E um ou outro piá mais afoito chegava a atirar-lhe pedras. Mas os adultos, sobretudo as mães, sempre de sentinela, repreendiam os rebentos com veemência. Elas presentiam que nos bastidores existenciais do velho Pablo (que afinal nem era tão velho assim – estaria beirando os sessenta) devia existir um drama ou uma tragédia qualquer.

Contava a dona da pensão às amigas mais chegadas – e a notícia espalhou-se como incêndio em palha seca – que no quarto do senhor Pablo havia uma foto de mulher bonita, ampliada, emoldurada e com um vidro por cima, a cerca de meio metro da cômoda, onde havia sempre duas velas ardendo, dia e noite. Seria esposa, filha, mãe, amante? Dona Rosalinda, a proprietária da pensão, ignorava. Ele tinha chegado à cidade há poucos meses, não se sabe de onde nem por quê. A verdade é que todos o tratavam com certo respeito, mesclado às vezes com uma espécie de asco, provocando talvez pelo forte cheiro de suor que se elevava das roupas mal lavadas do bigorrilhas, título com que o rotulara o João Xabregas da farmácia. Que se envergonhou, mais tarde, de tê-lo feito.

Nas noites de sábado, quem passasse em frente da pensão (ou morasse nas vizinhanças) ouvia a voz do bêbado choramingando e gritando: “Perdoa, minha santa! Perdoa!” Todos o imaginavam ajoelhado em frente da foto velha da jovem senhora – e não estavam enganados. Dona Rosalinda, espiando pelo buraco da fechadura, confirmara a suposição de muitos. E aquele pedido trágico de perdão, com voz sepulcral, no meio da noite de breu, vinha qualquer coisa de angustiante e patético.

Tudo acabou de repente. Foi como se as cortinas de um teatro mambembe caíssem, para dar fim a um dramalhão barato. Era uma noite de inverno, escura e fria. Pela primeira vez em muitos anos – ou décadas – a neve caía mansamente. Parecia que anjos etéreos, deixando de lado as harpas e as liras, iam recordando em pequeninos fragmentos, sedas e organdis muito brancos. Os flocos de neve vestiam com um manto alvacento os telhados e as ruas desertas. A certa altura, o conhecido grito – “perdoa!” – fez-se ouvir na infinita solidão da noite, mais alto, mais agudo, cortante como um punhal ferindo a epiderne nua do silêncio grávido de promessas terríveis. Alguns segundos se passaram e um estampido aconteceu, ominoso. Logo em seguida, houve um segundo estampido. E novamente o silêncio amortalhou a cidade vestida de branca solitude.

No quarto da pensão, vidro quebrado, o quadro com a foto da desconhecida jazia no chão. No lugar da cabeça, um buraco de bala. Caído ao lado da cama, uma poça de sangue sob o tórax, a pistola na mão direita, o senhor Pablo dormia para sempre, de olhos paradoxalmente muito abertos, no espanto derradeiro, indizível, de fitarem o nada.

Descobriu-se depois, num velho baú – ou arca -, um maço de cartas amareladas, atadas por uma fita vermelha. Seriam cartas de amor impossível ou paixão desenfreada? Estava ali, por certo, a solução do enigma de uma existência falhada. Só que, piedosamente, o doutor Anacleto Sacramento, delegado de polícia, houve por bem queimar as cartas sem tentar conhecer o conteúdo. Um ato de respeito à privacidade do morto, disse ele mais tarde, justificando o ato que alguns procuraram contestar.

Nas semanas que se seguiram ao “tresloucado gesto do senhor Pablo”, como escrevia um repórter num jornal, surgiram diversas explicações e hipóteses para a infausta ocorrência. Algumas, mirabolantes. Outras, simplesmente ridículas. Com o passar do tempo, todos foram esquecendo o suicídio – e o suicida. O rio da vida continua a fluir, indiferente.

Tudo isso aconteceu há muitos, muitos anos, naquele radioso país da infância de que todos acabamos por emigrar, inexoravelmente. E eu tenho a impressão de que, hoje, só eu sei que o senhor Pablo não foi uma figura de ficção, um personagem de romance medíocre, mas um sujeito vivo, de carne e osso, cambaleante às vezes, sempre com uma expressão triste nos olhos que pareciam derramar lágrimas invisíveis, nascidas de uma fonte inesgotável. (Mas quantos Pablos não existem neste mundo de Deus? Responde, leitor que me lês, meu semelhante e meu irmão).

João Manuel Simões

é escritor, membro da Academia Paranaense de Letras.