Glauco Velásquez (1884-1914) e Alberto Nepomuceno (1864- 1920) são dois nomes fundamentais da música erudita feita no Brasil na passagem do século 19 para o 20: o primeiro, mesmo tendo vivido apenas 30 anos, era comparado a Villa-Lobos por sua originalidade e ousadia; o segundo, pioneiro na inclusão de ritmos africanos e de canções em português, carrega a alcunha de pai do nacionalismo na música clássica. Mas onde estão suas partituras? Sem elas, músicos do século 21 ficam impedidos de executá-los. O entrave motivou a cravista e pesquisadora Rosana Lanzelotte a criar, há cinco anos, o portal Musica Brasilis, de resgate, editoração e divulgação dessas partituras.

Velásquez e Nepomuceno estão entre os últimos a terem peças recuperadas pelo projeto, que tem como desdobramento o Circuito BNDES Musica Brasilis, com apresentações programadas: Porto Alegre (dia 19), Belo Horizonte (27), Rio (3/9 e 17/9) e Fortaleza (28/9). O repertório inclui 33 obras deles para canto e piano e orquestra.

Rosana recuperou manuscritos de Velásquez na Biblioteca Nacional e na biblioteca da Escola de Música da UFRJ. Já os de Nepomuceno haviam sido guardados por um neto dele, Sergio Nepomuceno Alvim Correia, que é musicólogo. Tudo está sendo editorado e, em domínio público, será disponibilizado aos poucos no portal www.musicabrasilis.org.br.

O site, que já reúne mais de mil músicas de 200 compositores, incluindo contemporâneos, como Caetano Veloso e Chico Buarque, conta com seis mil acessos mensais. A maior parte, por músicos, do Brasil e de fora (estuda-se traduzi-lo para o inglês, mas ainda falta patrocínio para isso).

Os concertos do circuito são multimídia – com projeções de filmes do pioneiro do cinema Humberto Mauro sobre os compositores, datados dos anos 1950, a cargo do cenógrafo Hélio Eichbauer – e didáticos, com informações que contextualizam a obra deles na história do Brasil. O recorte escolhido é de 1888, ano da abolição da escravatura e iminência da passagem à república, a 1914, quando eclode a Primeira Guerra Mundial.

“Na Europa, sempre se editou de tudo, e ainda é assim. Aqui, não. E o que não se lê não se pode tocar, seja erudito ou popular”, diz Rosana. “No início do século 20, editavam-se dois mil títulos por ano. O divertimento das pessoas era comprar para tocar em casa. Isso foi cessando a praticamente zero. Partitura fechada em biblioteca não serve para nada: tem que estar transcrita e na mão do músico”, completa.

Exposição

Além do circuito, o Musica Brasilis promove, a partir do dia 3 de setembro, a exposição Rio 450 anos de música, no Espaço Tom Jobim. Instalações digitais, instrumentos e vídeos alinham tudo o que foi produzido na cidade desde a chegada dos portugueses até os dias de hoje – os 450 anos de fundação do Rio serão comemorados em 2015.

A linha do tempo começa nos índios tupinambás e culmina nos bailes funk. Duzentos compositores foram destacados. Os visitantes vão poder ver as afinidades entre os ritmos – no caso dos dois extremos, o batuque e o caráter ritualístico são traços comuns.

A mostra já ocupou o Centro de Referência da Música Carioca, na Tijuca, e o grande chamariz foi a mesa de compor: uma experiência sensorial, desenvolvida pelo músico Tim Rescala, que permite que os visitantes mexam com ritmos, melodias e harmonias de trechos pré-gravados. Em outro “brinquedo”, a mesa de mix, os instrumentos são isolados para que se perceba o papel de cada um.

“Quem não entende de música tem muita curiosidade de saber como as bolinhas da notação musical se transformam em sons”, acredita Rosana. “O objetivo é despertar o interesse por todo tipo de música. A TV e o rádio são muito limitados, existe muita coisa para além do que se ouve no dia a dia. Algumas escolas visitam a exposição e pedem para voltar, tamanha é a riqueza a ser explorada”.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.