“Meu pelo já foi raspado, tenho queimaduras químicas nas costas… queima um pouco! É, mas também não é nada demais. Só dói mesmo quando eu respiro”. O monólogo tirado do curta metragem Salve o Ralph – Save Ralph no original em inglês – é somente uma das frases de impacto da produção que, na última semana, foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais do mundo todo.

Produzido por meio de stop motion, técnica na qual a filmagem é feita em etapas a cada movimento dos bonecos, o filme foi idealizado pela The Humane Society International (HSI), organização internacional defensora dos animais e dirigido por Spencer Susser.

A história conta a rotina de um coelho usado como cobaia para testes na indústria cosmética. Bastante machucado, o coelho Ralph desperta incômodo na audiência logo na sua primeira aparição no curta. Cego de um olho, ele usa colar cervical e tem uma das orelhas enfaixadas. “Eu tô cego no olho direito e nessa orelha não consigo ouvir nada a não ser um zumbido”, diz o coelhinho que aceita passivamente seu papel como cobaia, afirmando que assim como seus pais, ele também vai morrer servindo à indústria e aos humanos.

Nos segundos seguintes acompanhamos Ralph em seu café da manhã quando de repente ele é arrancado à força de sua casa por gigantes mãos humanas e preso a uma plataforma de acrílico onde tem início seu “trabalho”. As imagens finais são bastante perturbadoras, principalmente se considerarmos o aspecto quase lúdico da narrativa até ali.

O lançamento de Save Ralph, nos Estados Unidos, no dia 6 de abril, causou frisson na audiência e na crítica pela forte mensagem da animação. Na versão original, quem empresta a voz ao coelho Ralph é o ator de Hollywood, Zac Effron, o que contribuiu ainda mais para que o filme entrasse para a lista de tópicos mais comentados na Internet naquela semana. No Brasil não foi diferente. Dublado pela ator Rodrigo Santoro, Ralph deixou perplexa boa parte da audiência brasileira cuja consciência sobre o tema é, na grande maioria, bastante limitada.

Assunto rendeu!

Se a ideia era gerar repercussão, Save Ralph funcionou. Segundo o Google Trending Topics, a busca pelo termo “Cruelty Free”, que designa as empresas que não testam seus produtos em animais, cresceu cerca de 80% no Brasil nas últimas semanas. Os termos “crueldade”, “animais”, “veganismo”e “cosmético” vêm na mesma esteira, entre os assuntos mais procurados depois do lançamento do curta metragem.

Segundo Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), a questão vem à tona pelo fato de não estar bem resolvida socialmente. E, se nos impressionamos com Save Ralph, a realidade nos bastidores da indústria cosmética é ainda mais perturbadora. “Sempre vemos campanhas expondo realidades que muita gente não gosta de encarar. Se há incômodo, é porque há consciência. Mesmo pequena. E nesse caso, o curta metragem pegou num ponto fraco dos brasileiros que amam os animais mas, ao mesmo tempo, pouco se preocupam em verificar se usam produtos nos quais os bichos são usados para testes”, afirma.

Eis a questão. Antes do ativismo vem o amor. E é bem verdade que a paixão pelos bichinhos é uma das marcas registradas do brasileiro. Segundo senso realizado recentemente, o número de pets nas casas brasileiras ultrapassa o de crianças e os gastos das famílias com seus animais de estimação persistem até mesmo diante da crise econômica da covid-19, mantendo o segmento entre os mais lucrativos do mercado.

Tanto amor faz com que Save Ralph invoque uma verdadeira “salada de sentimentos” entre os entusiastas dos bichinhos. O curta, ao mesmo tempo incomoda, constrange e nos faz questionar: por onde começar? Devo virar vegetariano? Vegano? Como amar e proteger os bichos? O que usar? O que não usar?

E agora?

Antes que surtemos, Ricardo Laurino, que é também ativista da causa animal, explica que dúvidas assim são comuns e que extremismos são desnecessários. Ao invés disso, deve-se servir da reflexão. O ativista defende ações como Save Ralph, já que as mensagens de impacto suscitam o questionamento.

“Nossa herança cultural sempre vai nos dizer que questionar é bobagem, já que as coisas sempre foram feitas da mesma maneira. E o que vemos na prática, são as indústrias dizendo o que o povo quer ouvir. Diante de ações como essa, nós passamos a questionar aquilo que nos foi ‘empurrado’ como normal e passamos a pensar com mais cuidado sobre o que estamos consumindo”, explica.

Dessa forma, prestar mais atenção ao tipo de produto que temos comprado, já é um passo importante do processo. “Muita gente não têm acesso à essas informações e campanhas como essa trazem o assunto à tona de forma inquestionável. Quem pesquisa sobre o assunto, por exemplo, sabe que é plenamente possível que indústria cosmética funcione sem testar nos animais. Centenas de empresas, inclusive, já abriram mão dessa prática”, explica.

Exemplo disso é a recente aprovação pela FDA, agência de saúde americana análoga à ANVISA no Brasil, do primeiro medicamento produzido de forma cem por cento livre de testes em animais. Desenvolvida por pesquisadores israelenses, a nova medicação para o tratamento de câncer foi desenvolvida a partir de um chip de simulações de órgãos humanos. A aprovação do remédio, em março deste ano, é inédita na história da medicina e abre precedentes para que os testes em animais sejam abolidos da indústria farmacêutica dentro das próximas décadas.


“Se cada um analisar bem de perto a questão, vai ver que não concorda com essa postura em relação à vida dos animais. Afinal, ninguém quer ver um animal sofrer. A busca pela cura desse mal, portanto, é direito de cada um que se sente incomodado ao conhecer a realidade por trás da indústria cosmética. E deixar de lado o consumo de produtos que ainda são desenvolvidos a partir de testes em animais, é dever de quem deseja, um dia, saber que mais nenhum bicho sofre em nome da sua beleza”, finaliza.