Anderson Tozato
Cláudio Seto é pioneiro
do mangá no Brasil.

Ele tem a expressão de um samurai dos filmes de Akira Kurosawa. Descendentes de samurais, é o pai do mangá no Brasil. O nome dele é Cláudio Seto.

Mangá é a versão japonesa dos quadrinhos. O termo foi cunhado em 1815 por Katsushika Hokusai. Foi Rakuten Kitazawa quem desenvolveu os mangás na estrutura de histórias em quadrinhos, como a conhecemos hoje. O que mais chama a atenção nos mangás são os olhos enormes em relação ao conjunto do rosto. As histórias vão de samurais à mitologia, romances a policiais, fatos reais a sexo, de heróis metálicos a monstros assustadores. Tudo rende bom mangá. E existem vários tipos de mangá: o Shonen Mangá (para rapazes), o Shojo Mangá (para moças), Josei-Mangá (para mulheres), Kodomo-Mangá (para crianças) e o Hentai-Mangá (de sacanagem). Seto fez mangás de todos os tipos.

Há alguns anos o ocidente passou a apreciar mangás. Os títulos mais importantes são editados nos EUA, Europa e até o Brasil. No entanto, o brasileiro já conhecia os mangás importados pela comunidade nipo-brasileira e desenhados por Seto no final dos anos 60s.

O barbeiro

Na realidade, a história de Seto renderia muitos mangás. O seu nome verdadeiro é Chuji Seto Takeguma. Cláudio Seto é o nome de seu irmão gêmeo. Assim, ele é conhecido pelo nome do irmão, e vice-versa. Este mangá começa em 1930 quando o jovem Yoshinori Takeguma veio do Japão em 1930 e foi morar em Avaré, na fazenda do tio Tioko Kumabe. Quando completou 19 anos, o tio fez o Miai dele com a cunhada. Miai é a apresentação do rapaz em idade de casar, a uma moça. Takeguma não gostou da moça e, no dia do casamento, em Sorocaba, falou que ia cortar o cabelo. Conversou com o barbeiro e decidiu cair fora. Voltou de trem para Avaré, deixando a moça sozinha.

O tio que preparou uma festa com sashimi, ficou uma fera e não quis mais ver o sobrinho. Takeguma trabalhou na fazenda, apesar do tio. Um vizinho chamado Hirama achou-o bom rapaz e arrumou uma segunda chance para ele. Desta vez um yoshii (quando o rapaz casa com a filha única e herda o sobrenome dela. Isto é mais que muita responsabilidade). Takeguma conheceu Yoshie Seto, gorda, baixa, 16 anos, cujos antepassados foram samurais. Casamento acertado, mais uma vez ele foi conversar com o barbeiro. O barbeiro disse que o futuro sogro era conhecido como o advogado do diabo e ?arrumava encrenca e briga com todo mundo?. Takeguma se assustou e mais uma vez quis pegar o trem para Avaré.

Na estação encontrou uma japonesa linda. E que estava triste porque a família a obrigava a fazer miai com um velho, de quem não gostava. Por isso ia fugir para São Paulo. Mais: ela disse que iria com Takeguma para Avaré se ele aceitasse. Proposta irrecusável. Takeguma olhou a moça e pensou que não tinha como sustentá-la, se ele mal se mantinha. Resumindo: ficou com a gordinha Yoshie Seto.

Os dois tiveram muitos filhos, entre eles os gêmeos Chuji Seto Takeguma, que é o nosso Cláudio Seto. E o outro, Cláudio Seto, que é conhecido por Chuji Seto Takeguma. A trama ficou mais complexa quando a avó dos gêmeos mandou um deles, o verdadeiro Cláudio Seto, para o Japão. Não bastasse, quando Chuji Takeguma fez nove anos, ele foi para o Japão e o Claudio Seto, veio para o Brasil. E como eram gêmeos, a troca de identidades foi natural. ?Durante nossas vidas trocamos de lugar por várias vezes. Como somos gêmeos idênticos, pouca gente percebeu a troca?, diz Cláudio Seto ou Chuji Takeguma.

A lição do velho budista

No Japão, Seto estudou com mestres dos quadrinhos. Mas foi uma passagem na infância que fixou em sua memória os princípios da arte. Aos seis anos de idade, ele e seus irmãos Yoshimitsu e Kuniomi jogavam bola no quarto do avô, diante de um guarda-roupa, com espelho. A bola bateu no espelho, que ficou em pedaços. Em vez de bater nas crianças, o velho, um budista fervoroso, as fez sentar no dia seguinte na posição seiza (lótus japonesa), diante do guarda-roupa e como castigo eles observaram o velho pintar um haiku na madeira onde antes havia um espelho. O haiku dizia: espelho quebrado/vaidade em cacos/surge o Monte Fuji.

O velho Seto desenhou o Monte Fuji ao fundo, um rio e um salgueiro. Os galhos do salgueiro pendentes tinham pequenas folhas que iam caindo e davam continuidade, transformando em ideogramas, que eram os textos do haiku. Essa interação do texto com a imagem, produzindo significado, nunca mais saiu da cabeça do garoto na posição lotus. ?Creio que aí está a origem de meu interesse pelos quadrinhos, durante certa época de minha vida?, diz Cláudio Seto.

Mestre Tezuka

No Japão, Cláudio Seto estudou no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Kyoto. Depois de três anos, prosseguiu estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ethiko-san, no templo do mesmo nome, da seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, estudou a história do país de seus ancestrais e artes tradicionais japonesas, como o haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai.

No Japão aprendeu a gostar de Tezuka Osamu. Nos finais de semana, os aprendizes de monge iam visitar o estúdio de Tezuka. No andar de cima do estúdio havia dormitório, onde moravam vários jovens, que vinham de toda parte do Japão, aprender a arte do desenho com o mestre. Os seguidores da escola de Tezuka que mais influenciaram Seto foram Mizuno Hideko e Shirato Sanpei.

?O mestre Sanpei era atencioso, me deu vários livros de mangá, inclusive quando eu voltei ao Brasil, ele me enviou novos mangás que publicou?, diz Seto. Quando Sanpei montou a Akame Productions, convidou-o para trabalhar com ele. Mas era muito caro ir e vir do Japão. Ainda assim, Seto trabalhou como aprendiz no estúdio de Tezuka e, depois, retornou ao Brasil. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, foi trabalhar em São Paulo, como argumentista e desenhista de história em quadrinhos.

E assim começa a história de Cláudio Seto como ilustrador no Brasil, que renderia outro mangá. Ele desenhou Maria Erótica, Katty Apache e foi um dos nomes principais da Editora Edrel, de 1969 a 1972, em São Paulo. Com a derrocada a Edrel, migrou para Curitiba, pouco tempo depois. Na Grafipar, fez história com as revistas Eros em Quadrinhos, Sexo em Quadrinhos e outras publicações.

Este é um período que ficou para trás. ?Quadrinhos faz parte de um passado remoto e não é uma fase importante de minha vida. Como artista plástico, escritor e depois paisagista e espiritualista, aprendi mais coisas, tive mais satisfação?, diz.

Atualmente, Cláudio Seto mora em Curitiba onde faz estudos florestais de árvores nativas e desenvolve técnicas para bonsai com árvores brasileiras. ?Diariamente cuido de bonsai, tenho no momento mais de mil e é a arte que mais gosto?, diz.