Mais uma vez, o SBT recorre às trapalhadas de Chaves e sua turma para "tapar um buraco" na programação. Diante dos baicos índices de audiência do Cor-de-Rosa, apresentado por Sílvia Abravanel e Décio Piccininni, que não passava de pífios três pontos, a emissora de Sílvio Santos retirou o programa de fofocas do ar e, em seu lugar das 17h30 às 18h30 voltou a exibir Chaves. O seriado – criado na década de 70 pelo mexicano Roberto Gomez Bolaños, que interpreta o Chaves – estava fora da grade desde o início do ano.

O SBT começou a transmitir o seriado em 1984 e, nesses 20 anos, Chaves já foi exibido nos mais diferentes dias e horários, de acordo com a necessidade da emissora. Para o SBT, porém, a troca não poderia ter sido melhor, já que Chaves quase quadruplicou a audiência do final da tarde, mantendo algo em torno de 11. Mas não é só o SBT que está satisfeito com o retorno do humorístico. Os inúmeros fãs de Chaves também estão. Depois de muito "perturbarem" a emissora de Sílvio Santos com inúmeras cartas, e-mails e até um encontro chamado "Chaves 20 anos", realizado no dia 30 de outubro no Rio de Janeiro, os aficionados pelo seriado mexicano estão podendo assisti-lo novamente todos os dias. Mas essa alegria, no entanto, pode não durar muito. Para o SBT, Chaves é um curinga na programação e nada impede que, daqui a pouco, ele seja retirado do ar ou tenha seu horário de exibição alterado pela "milésima" vez.

Eterno sucesso

Compreender o sucesso que o seriado faz no Brasil há duas décadas não é tarefa fácil. À primeira vista, o programa é bobo, sem graça e exagera no estilo "pastelão", com muitos tombos, tropeços e arremessos de objetos e de água nos personagens. Não se pode esquecer também das famosas "distrações" de Chaves, como colocar as mãos sujas no lençol branco que Dona Florinda acabou de lavar ou engraxar os sapatos brancos e a calça do amigo Kiko com graxa preta. Mas, na verdade, é justamente essa despretensão meio ingênua que faz com que o seriado seja engraçado. Pois o que mais se vê na tevê são programas, inclusive infantis, repletos de piadas de duplo sentido e que exploram a sensualidade ao extremo.

No seriado, é até possível garimpar alguns valores que são transmitidos às crianças de forma lúdica. Em um dos episódios, por exemplo, Dona Florinda diz a Chaves: "As crianças não devem responder aos mais velhos". Pode não parecer muito, mas já é um bom começo. É assim, com uma linguagem simples e uma lógica infantil, que "Chaves" conquistou uma legião de fãs ao longo dos anos. Outro elemento que contribui para o sucesso é a identificação que o humorístico desperta por retratar situações corriqueiras, como as brincadeiras das crianças na vila, os afazeres domésticos e as "picuinhas" entre os vizinhos.

Deslizes

Apesar da temática "pura", o seriado tem os seus deslizes. Chaves, muitas vezes, cai na mesmice e na lentidão. O que também ajuda a aumentar a sensação de que o programa se "arrasta" em diversos momentos é o fato do cenário quase não mudar. A maioria dos episódios se passa no pátio da vila, sendo muito raro as histórias acontecerem em outros locais, como o interior das casas dos personagens e a barbearia. Além da pouca variedade, os cenários são muito mal-acabados e mal-iluminados, evidenciando ainda mais a simplória produção do seriado. Ou seja, Chaves é um programa esteticamente feio, que está sempre cheio de sombras e tem um figurino paupérrimo. Legítimo representante da chamada "estética trash", Chaves tinha tudo para não obter êxito: produção simplória, pouca qualidade visual, humor nada refinado e excesso de reprises. Mas sempre acaba se tornando o trunfo do SBT para alavancar a audiência. Um desses sucessos que acontecem "sem querer querendo".