Escritor curitibano tenta redimir
povo alemão dos horrores da guerra.

Enquanto baixa a poeira da última investida do império norte-americano no Oriente Médio, e Roman Polanski ainda saboreia a vitória no Oscar de O Pianista, belo filme sobre o recorrente tema do holocausto, está nas livrarias a segunda edição de uma obra polêmica por si só: …E a Guerra Continua, primeiro livro do publicitário paranaense Norberto Toedter, propõe uma reflexão sobre o lado alemão nas duas grandes guerras, particularmente a segunda.

“Sou filho de alemães, e tenho apreço pelas minhas raízes”, explica o escritor. “Eu estava lá durante a Segunda Guerra, entre os alvos civis dos bombardeios dos chamados ?aliados?, e me solidarizei com aquela gente. O que se tem mentido, o que se tem falado mal injustamente desse povo me revoltou.” Ele vai além: “Por que o Oscar a O Pianista? Por que a insistência nesse tema? Para manter o povo alemão sob custódia. Minha intenção é defender o povo alemão, tão oprimido por esse eterno mea-culpa, pela lavagem cerebral que vem sofrendo nos últimos 60 anos”.

Para explicar sua tese, Toedter apresenta argumentos controversos. Mostra a Alemanha como vítima, ao ressaltar que as duas guerras mundiais foram deflagradas contra o mesmo inimigo. Sobre a Segunda Guerra, diz, por exemplo, que a Áustria jamais foi anexada: “A Áustria pertencia à Alemanha desde 1919, logo após o fim do império austro-húngaro. A parte germânica do país optou por pertencer à Alemanha em um plebiscito. Entre 1937 e 1938 foi feita outra consulta, e mais uma vez o povo austríaco optou por permanecer unido à Alemanha”.

Com relação à Polônia, Toedter diz que o que se pretendia era a recuperação da cidade de Gdansk ao território alemão. “Essa cidade possuía 94% de alemães na época, e se constituía num importante corredor para o transporte de mercadorias entre a Alemanha e a Prússia oriental.” Segundo o escritor, Adolf Hitler e o governo alemão caíram numa “armadilha”: “A Polônia tinha recebido, por parte da Inglaterra e dos Estados Unidos, todas as garantias de que seria defendida no caso de um conflito com a Alemanha. Essa promessa encheu os poloneses de confiança, e os fez provocar os alemães ao máximo, inclusive com perseguições às minorias germânicas. O que se viu depois é que a Polônia não só foi abandonada pelos ?aliados?, como perdeu seu território para a URSS. O grande erro de Hitler foi imaginar que poderia resolver a situação com negociações diplomáticas”.

Ingenuidade

Norberto Toedter tem a coragem de expor uma opinião bastante peculiar sobre o führer. Questionado se Hitler teria sido vítima ou algoz, ele responde: “Foi um ingênuo, como normalmente é ingênuo o povo alemão nessas questões políticas e militares”. E as atrocidades, a crueldade amplamente divulgada dos campos de concentração? “A Segunda Guerra foi a demonstração máxima de crueldade e selvageria jamais vista na humanidade, de ambos os lados. Quanto aos campos de concentração, não havia apenas dissidentes do regime e judeus, mas também criminosos comuns, que foram libertados com o fim da guerra.”

Ceticismo

O escritor se mostra cético também com relação às execuções em massa nas câmaras de gás, às famosas “experiências” médicas e à tortura. “Será que foi daquele jeito mesmo? Há muitas notícias contraditórias publicadas em diversos jornais da época, como eu mostro no livro. Se eles mesmos diziam que havia 14 milhões de judeus no mundo inteiro, na época, como seria possível exteminar 6 milhões?” Ele também vê com desconfiança a alardeada fúria expansionista do exército alemão: “Dá para acreditar que um governo alemão, instalado havia menos de seis anos, de repente se imaginasse em condições de enfrentar o mundo e as potências da época (Inglaterra e Estados Unidos)? Sem recursos econômicos, humanos e militares para isso? Não faz sentido. Quem sempre teve apetite imperialista, desde a doutrina Monroe de 1823 (“A América é dos americanos”), foram os Estados Unidos”.

Toedter não nega, mas minimiza a perseguição de Hitler aos judeus: “Ele reclamava mesmo dos judeus, porque eles ocuparam todos os cargos e posições estratégicas na Alemanha, tanto no setor empresarial como na mídia. E ele pretendia acabar com esse domínio”. As diferenças teriam se acirrado com uma suposta “declaração de guerra” dos judeus de todo o mundo à Alemanha, publicada em jornais ingleses poucos meses depois de Hitler ter tomado posse como primeiro ministro.

Ele menciona ainda os prisioneiros de guerra: “Ninguém jamais ouviu qualquer queixa a respeito do tratamento conferido aos prisioneiros sob a custódia do exército alemão… Já os alemães foram mandados para a Sibéria, ou morreram por lá ou voltaram muitos anos depois – a última leva só voltou para a Alemanha em 1958. Acho que está mais do que na hora de as pessoas pensarem um pouco mais sobre o que realmente aconteceu, para que esse povo, que é muito valorozo, possa recuperar a dignidade”.