O delicado segundo filme dirigido pelo encenador Felipe Hirsch, Severina, iniciou oficialmente nesta quarta-feira, 12, sua carreira internacional, ao ser anunciado na programação do Locarno Film Festival, mostra conhecida pela veia independente, que acontece na cidade suíça entre 2 e 12 de agosto. Também participarão os longas As Boas Maneiras, terror de Juliana Rojas e Marcos Dutra, e Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queiróz.

Severina deverá participar ainda de outros festivais – como o do Rio e a Mostra de São Paulo -, antes de estrear no cinema brasileiro, no início de 2018. “Trata-se de um dos mais sensíveis filmes que já produzi”, atesta Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora responsável pelo trabalho e que vai participar do próximo trabalho de Brad Pitt. “Felipe cumpriu à risca o planejamento de filmagem e entregou um longa precioso.”

De fato, o jornal “O Estado de S. Paulo” assistiu, em primeira mão, a uma exibição do filme. Inspirado em um conto do escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa (admirado por Roberto Bolaño e Paul Bowles), Severina trata de um amor obsessivo – R., o dono de uma livraria, fica intrigado com uma moça que começa a frequentar sua loja. Logo, ele se descobre em um emaranhado que encobre Ana, moça que rouba volumes de livrarias para ler e compartilhar com um suposto avô. Aos poucos, o desorientado homem descobre que a fronteira entre o racional e o irreal é fina demais.

“Fazia sete anos que eu não rodava um filme, desde Insolação, e eu vinha pensando no filme que não faria”, conta Felipe Hirsch que, desde 2013, começou a refletir no palco sobre a realidade latino-americana (e a brasileira, em particular). Para isso, devorou diversos textos escritos no continente ao longo dos últimos séculos, garimpando verdadeiras joias, que lhe renderam duas peças, uma série escrita conjuntamente com 20 autores latinos e ainda a ideia para o filme, cujo roteiro começou a desenvolver naquele 2013, na Alemanha, onde participou da Feira do Livro de Frankfurt.

Severina, o conto, traduz com perfeição o argumento buscado pelo encenador – escrito durante um período marcado pela dor da separação, o texto trata de amor e perdão. “Rey Rosa o define como um delírio amoroso, uma metáfora sofre a situação que marcou sua vida e sobre o poder libertador do perdão”, conta o cineasta, que rodou o longa inteiramente em Montevidéu, no Uruguai, o que contribuiu enormemente para conferir o clima misterioso da trama. “E porque também o Brasil não se encaixa com perfeição na realidade da América Latina.”

Isso refletiu na produção – Severina é um mergulho cinematográfico no pensamento de vários autores do continente, o que se torna mais acentuado pela eclética formação do elenco: uruguaios, argentinos, brasileiros, chilenos, guatemaltecos e até portugueses. Hirsch promove singelas homenagens, marcadas pela presença de Daniel Hendler (destaque em filmes do cineasta argentino Daniel Burman) e Alfredo Arturo Castro Gómez, veterano ator chileno, cuja participação é pequena, mas decisiva. “Ele vive o suposto avô de Ana/Severina e, em uma determinada cena, Alfredo permaneceu imóvel durante um longo tempo, o que contribuiu perfeitamente para o clima da situação.”

O casal protagonista é formado pelos argentinos Carla Quevedo e Javier Drolas, cuja atuação é impecável. Como R., Drolas é convincente como o livreiro com aspiração a ser escritor e que prefere viver um enredo delirante a descrevê-lo no papel. E Carla, dona de uma aparente fragilidade, revela-se perfeita no papel da moça misteriosa que, na avidez por livros roubados, se revela uma moderna Sherazade, eficaz em moldar o mundo ao redor segundo seus desejos.

“É um filme sobre destinos, sobre como um livreiro se transforma em um livreiro velho, e sobre os cadáveres que ocupam nossos sofás durante os relacionamentos amorosos, familiares”, observa Hirsch. “Também sobre como temos que aceitar, tratar, nos livrar e, com o tempo, nos transformar neles. Primeiro como noivos (namorados); depois, como padres (pais). Por fim, é um filme sobre o verdadeiro e o apócrifo, e sobre os valores que damos às coisas.”

Em seu cuidado técnico, Hirsch trabalhou com profissionais com sensibilidade lapidada, o músico Arthur de Faria, responsável pela trilha sonora original. “As canções ajudam a mostrar como o filme começa racional e vai se tornando sentimental dentro de uma camada sensorial”, observa o diretor, que dedica o filme a Hector Babenco, morto há exatamente um ano. “Era um importante interlocutor. Sem ele, não existe mais uma São Paulo”, lamenta-se Hirsch que, com o filme, reflete também sobre uma América Latina que, aos poucos, deixa de existir.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.