Morreu o escritor Wilson Bueno, ou pior, roubaram-lhe violentamente a vida. Ceifaram sem piedade o tronco gigantesco de uma árvore que servia de abrigo a um vasto jardim zoológico, onde repousavam cachorros do céu, delírios da natureza, imaginações chuvosas, inspirações às pencas. Dos galhos pendiam idéias mil, para futuros livros e nas folhagens estavam registradas todas as passagens da sua tão curta, mas tão prodigiosa vida, que ele costumava reproduzir em crônicas, como se fossem fotografias, para que para que o tempo não as apagasse de sua memória.

Wilson Bueno nasceu em Jaguapitã e para orgulho dos jaguapitãenses sempre registrava essa origem em seus escritos ou falas, embora tenha deixado a cidade ainda muito criança. Radicado em Curitiba tornou-se um escritor internacionalmente conhecido, construiu um nome de destaque na nossa Literatura e aos 61 anos de idade foi calado pela brutal violência que serpenteia nossas cidades, nossas ruas, nossos lares, nossos caminhos, como numa grande ironia ao que um dia escreveu: “… tenho feito meu caminho a ferro e faca”.

O assassino não matou só Wilson Bueno, matou também um número incalculável de embriões que fervilhavam em suas idéias, que dariam ainda origem a inúmeros personagens que lhe brotavam tão facilmente todos os dias. Os já nascidos e registrados em seus livros continuarão a dar vida ao seu nome para que jamais desapareça, mas os que esperavam por serem chamados, jamais farão a alegria de nós leitores e admiradores de sua obra. Houvesse entre os humanos menos violência e mais amor, menos ignorância e mais cultura, menos interesse e mais solidariedade não estaríamos hoje sofrendo com tão grande perda.

Jaguapitã une-se ao coro de amigos e familiares de Wilson Bueno para demonstrar a revolta e a tristeza que a notícia causou pela perda de tão ilustre filho seu e relembra com orgulho alguns trechos por ele citados em duas importantes crônicas que sobre ela escreveu:

“Haver nascido em Jaguapitã, ou mais propriamente em Água do Salto, …confere-me a honra de ter vindo ao mundo , puríssima poesia , sob o céu de uma cidade do interior”.

“Moram comigo e hão de insistir também comigo, rios e córregos bichos e gentes…paisagem de Jaguapitã”.

“Levo teu nome, Jaguapitã, na minha viajeira cédula de identidade”.

“Minha aldeola natal é fotografia antiga a esmaecer na parede”.

“…De tudo a lembrança mais garrida é a de tuas quermesses no adro da igrejinha de São José e a figura gorda, suarenta, desbocada do Padre Guido, animando o bingo, o gamão e expulsando da missa das oito as moças de braço a descoberto”.

Já disse Guimarães Rosa que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. Wilson Bueno ficará para sempre encantado entre nós. Sua história terrena foi escrita e registrada graças ao dom que recebeu de usar as palavras para o bem.

Neuza de Souza Campos e Prado.

Professora aposentada de Jaguapitã (PR).