O cartunista Art nasceu na
Suécia, mas mora em Nova York.

O que pode haver de comum entre as histórias em quadrinhos e a tragédia do 11 de setembro? Tudo, se o sujeito que examina a tragédia é o cartunista Art Spiegelman, de 56 anos, um dos guardiães de uma das musas mais sombrias dos comics, a maldade dos homens, explorada com maestria na série Maus – cujos dois livros venderam cerca de 1,8 milhões de cópias nos Estados Unidos e lhe renderam um prêmio Pulitzer.

Acontece que, além de tudo, Spiegelman vivia a dez quadras das Torres Gêmeas e, em 2001, sua parabólica mente gráfica registrou como um testemunho pessoal tudo aquilo. Spiegelman resolveu contar sua visão do fato num delirante álbum gráfico, À Sombra das Torres Invisíveis (que chega agora às livrarias em lançamento da Companhia das Letras, a R$ 78).

Ele examinou, além do incrível impacto psicológico daquela barbárie, os pontos de conexão históricos entre HQs e o cenário do atentado. Curioso notar que, a dois quarteirões do Ponto Zero (e um século antes), os magnatas Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst elevaram as tiras de quadrinhos nos jornais como um dos recursos na sua feroz batalha para ganhar o coração dos leitores. Foi num desses tablóides que surgiu, no século 18, o Yellow Kid, a pioneira HQ.

Spiegelman enxergou mais pontos de conexão entre clássicos como Os Sobrinhos do Capitão, de Rudolph Dirks, e mesmo no Krazy Kat, de Herriman. “Depois do 11 de setembro comecei a achar Ignatz muito parecido com Osama Bin Laden”, escreveu.

No dia 11 de setembro, ao presenciar o atentado, Spiegelman e a mulher, Françoise Mouly (editora da The New Yorker), saíram em desabalada carreira por uma Nova York caótica para resgatar a filha, Nadja, estudante na Stuyvesant High School, a 10 quadras do atentado, e em seguida o filho, Dash, de 10 anos, na Escola das Nações Unidas.

Segundo disse, o que o impressionou naquilo tudo foi quão vulneráveis eram Nova York e toda a civilização ocidental, com suas torres arrogantes. “Na verdade, tudo é transitório e efêmero como, por assim dizer, velhos jornais”, afirmou.

Também o impressionou a forma como o governo aproveitou-se politicamente do episódio, “reduzindo tudo a um mero pôster de recrutamento de guerra”. Ele foi fuçar na história dos quadrinhos e evidenciou o momento em que, também nos comics, os esforços de “recrutamento”, as fórmulas propagandísticas prevaleceram. E também os “exemplos” de ação suicida, como num quadrinho chamado Happy Hooligan, em 1911, com um personagem errante que, num belo dia de agosto, troca seu chapéu de lata chapliniano por um turbante para tornar-se Abdullah Hooligan – que, após provocar um camelo, acaba sendo atirado sobre uma torre de acrobatas, uma forma simbólica semelhante às Torres Gêmeas.