Houve tempo que Tarcísio Meira só fazia papel de galã. Seus personagens, invariavelmente, eram sempre heróicos, românticos, impolutos… Hoje, aos 63 anos, ele já se dá ao luxo de interpretar tipos asquerosos, como o Dom Jerônimo de “A Muralha”, um fanático religioso que morreu na fogueira da Inquisição, ou simplesmente cômicos, como João Medeiros, um fotógrafo “bon vivant” que trazia “piercings” na orelha. Mas Tarcísio Meira nunca foi tão longe.

Em “O Beijo do Vampiro”, ele interpreta uma autêntica criatura das trevas, que se alimenta de sangue humano. “Num certo momento da carreira, tive o maior cuidado em não desapontar o público. Ele esperava de mim uma postura de super-herói. Hoje, ele já espera qualquer coisa de mim”, brinca.

Nos últimos anos, os tipos heróicos, como João Coragem, de “Irmãos Coragem”, e Capitão Rodrigo, de “O Tempo e o Vento”, cederam lugar a outros mais odiosos, como Renato Villar, de “De Corpo e Alma”, e Raul Pellegrini, de “Pátria Minha”. Mesmo sem se importar em manter a imagem de “homem-dos-sonhos-das-donas-de-casa”, Tarcísio pediu ao autor Antônio Calmon que o protagonista da próxima novela da novela das sete fosse um “vampiro comedido”, desses que não machucam nem crianças nem velhinhos. “Não é o fato de ser ou não mau-caráter que torna o personagem bom. Ele é bom quando você acredita nele e, principalmente, quando o público acredita no que estou fazendo”, teoriza.

Mas como acreditar – ou fazer o público acreditar – em vampiros? O próprio Tarcísio não sabe responder. Limita-se a abrir o sorriso largo, uma de suas marcas registradas. “Como é um vampiro? Sei lá! Nunca vi um…”, diverte-se. Mesmo assim, admite que o figurino e a maquiagem ajudaram e muito na assustadora composição do personagem. Quando Boris deixa de ser um homem de negócios e vira criatura das trevas, Tarcísio recorre a lentes de contato e a próteses dentárias. “Quando me olhei no espelho, tive medo de mim mesmo. Cheguei a ter pesadelos à noite. Você já viu um negócio desses?”, indaga, brincalhão.

P

– Com mais de 40 anos de tevê, já tinha passado pela sua cabeça fazer um vampiro numa novela?

R

– Nunca em tempo algum. Mesmo porque vampiros não fazem parte da cultura brasileira. Essa novela não passa de outra grande brincadeira do Antônio Calmon. Assim como “Um Anjo Caiu do Céu”. Quando recebi o convite, pensei logo: “Como vou fazer para compor um vampiro?”. Sei lá! Nunca vi um… Como eu posso saber? Não sei. O jeito é brincar em cima disso. Não tenho outra intenção senão me divertir e divertir o público também com essa história de vampiros.

P

– Qual foi sua reação ao se ver no espelho com olhos demoníacos e dentes pontiagudos?

R

– Barbaridade! Na primeira vez que me olhei no espelho, levei um susto. Tive medo de mim mesmo. Cheguei a ter pesadelos à noite. Mais tarde, quando fiz o implante de cabelo, me senti o próprio sobrinho do Rei Arthur. Nunca estive tão cabeludão no vídeo. Ter cabelos compridos é muito chato. Sinceramente, não sei como as mulheres agüentam…

P

– As primeiras cenas de “O Beijo do Vampiro” foram produzidas em Portugal. Como foram as gravações?

R

– As gravações foram ótimas. Quebrei duas costelas lá. Levei um escorregão no banheiro do hotel. Os banheiros de lá não têm chuveiro. O chuveiro deles fica em cima da banheira. E a banheira não tem qualquer proteção antiderrapante. Na hora que fui lavar a cabeça, meu pé escorregou e caí para trás. O chão devia estar todo ensaboado. Quando caí no chão, não lembro de mais nada. Foi horrível! Bati as costas, quebrei duas costelas… Doeu muito. Doeu não, ainda dói. Felizmente, não bati a cabeça nem a coluna.

P

– Parece que você também se feriu durante a gravação de uma luta com espadas?

R

– Cheguei a ler no jornal que tomei pontos no olho. Mas não tomei ponto nenhum. Houve um acidente numa cena de luta e eu me machuquei. Só isso. Por sorte, tenho um genro que é cirurgião-plástico. Ele anestesiou a região e colocou uma cola cirúrgica. Tudo teria terminado bem se a região não tivesse inchado. Fiquei de olho roxo como se tivesse levado um soco. Mas já estou recuperado. Fiquei uns seis dias em casa.

Cumplicidade familiar

O nome de Tarcísio Meira está intimamente associado ao da mulher, a atriz Glória Menezes. Até hoje, o casal já contracenou em 15 novelas e se transformou num dos mais populares da tevê brasileira. Os dois estão juntos desde 62, quando se conheceram num teste da radionovela “Um Pires Amargo”, na Rádio Tupi. A primeira vez que trabalharam juntos foi em “2-5499 Ocupado”, na TV Excelsior, um ano depois, a primeira novela diária da tevê brasileira. “O texto era muito chato e mal-escrito, mas teve uma audiência inesperada”, avalia o ator. Mesmo assim, a empatia do casal funcionou de imediato. A parceria cênica rendeu até um seriado quinzenal “Tarcísio & Glória”, exibido pela Globo em 1988.