Não espere fazer “papel de platéia”, distante, soberana e intocável no espetáculo Não Ficamos Muito Tempo… Juntos, que tem estréia nacional hoje no Teatro HSBC/Palácio Avenida, em Curitiba.

Nem tente compreender de forma literal a “mensagem” ou o “significado”, ou ainda identificar uma lógica cartesiana que norteie a ação. A peça dos irmãos brasilienses Adriano e Fernando Guimarães, sobre cinco pequenos textos do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, é muito mais uma experiência sensorial, instigante e perturbadora, que conjuga elementos das artes cênicas e plásticas para penetrar no inconsciente do público. E, de quebra, desconstrói a “aura de galã” de Marcello Antony, além de trazer Vera Holtz numa pequena participação de 6 minutos de duração. No elenco estão ainda Alessandro Brandão, Alex Ferro, Bruno Torres, Catarina Accioly, Dora Wainer e William Ferreira.

Não Ficamos Muito Tempo… Juntos é a segunda parte de uma trilogia, iniciada em 1998 com Felizes Para Sempre – encenada no X Festival de Teatro de Curitiba, no ano passado -, que será completada em novembro de 2003 com a novela radiofônica Todos Os que Caem. São colagens de textos de Beckett escritos entre 1956 e 1983, que sintetizam a tensão existencial, rigidamente delimitada por elementos como iluminação, sonoplastia e objetos, num espaço cênico restrito e claustrofóbico.

“É um desafio muito grande, porque num tempo e espaço muito curtos, a gente precisa mostrar algo muito maior”, resume Dora Wainer. “É o trabalho mais difícil que eu já fiz, porque a gente tem que lidar o tempo todo com a precisão e o despojamento”. A atriz, que está no projeto desde o início, revela que vem compreendendo a linguagem e as intenções do dramaturgo ao longo desses quatro anos. “É gratificante e assustador”, define. “Beckett sempre coloca os seus personagens numa situação-limite, manipulada por um agente externo, como o som, a imagem ou o tempo”, emenda Marcello Antony. “Isso exige muito mais concentração”.

Outra característica da obra de Samuel Beckett é o grau de detalhamento, a precisão e a rigidez impostas pelo autor: “Ele descreve tudo milimetricamente – a quantidade e a duração da luz, o tempo de cada cena, os elementos… nós, atores e diretores, quase só seguimos instruções”.

Fernando Guimarães vai mais longe: “É nesse espaço mínimo que nós temos que criar o máximo. É um trabalho de ourivesaria, e é aí que se destaca o trabalho do ator”. Completa o projeto uma mostra de fotografias, instalações com objetos de cena de algumas montagens e textos de Beckett. A exposição permanece no Teatro HSBC durante os cinco dias em que o espetáculo será apresentado.

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De hoje a 11 de novembro, às 20h30, no Teatro HSBC/Palácio Avenida. Ingressos a 10 reais.