Havia espectadores em êxtase, jovens principalmente, com a descoberta de Proezas de Satanás na Terra de Leva e Traz, de Paulo Gil Soares, exibido na tarde de quarta-feira (23), em homenagem ao aniversário da cidade de Tiradentes. A sessão teve direito a bolo. Foi ruidosa, mas o filme passou em DVD, porque não existe mais cópia de cinema das Proezas de Satanás. A idade cai bem nas obras que o tempo respeita. O filme de Paulo Gil, de 1967, depois dessa boa impressão, talvez venha a recuperar o lugar de destaque que merece no cinema brasileiro dos anos 1960. Havia espectadores perplexos, à noite, depois de assistir ao vigoroso Ferrolho, de Taciano Valério. Foi a primeira ficção da Mostra Aurora, mas impregnada de forte aspecto documentário. Tem sido um tema de discussão na Mostra de Tiradentes. Há uma overdose de real, principalmente agora, nestes tempos de BBB. Os diretores de documentários tentam fugir ao óbvio ululante buscando novas formas de narrar. Elas têm dado o tom das produções do gênero na Mostra Aurora.

Não é por pertencer ao domínio do real que o documentário não tenha de se preocupar com a linguagem. Na quarta, houve um documentário muito bonito, e Proezas de Satanás ficou imprensado, na programação, entre ele – Esse Amor Que nos Consome, de Allan Ribeiro – e Ferrolho. Ribeiro estende um curta que fez antes com os mesmos personagens. Gatto Larsen e Rubens Barbot são companheiros na vida e na arte há 40 anos. Possuem uma companhia de dança. O filme não deixa de tratar do processo de criação, como Matéria de Composição, de Pedro Aspahan. Situa-se numa casa em ruínas, que a dupla e seus dançarinos vão reconstruindo. O dinheiro é um problema de todos, melhor dizendo – a falta de. No início, há uma consulta aos orixás, para saber se a casa, que está à venda, vai mesmo sediar o sonho de dançar (e viver) de Gatto e Rubens.

Após um momento particularmente inspirado, no esboço de uma coreografia baseada na ópera Rinaldo, de Haendel, Gatto pede a Rubens um abraço. Às vezes, de tão absorvidos pela arte, eles não têm tempo para a vida. O amor que os consome, qual é? A arte também não deixa de ser a matéria de Taciano Valério. Ele é paraibano, mas mora e filma no interior de Pernambuco. Revela uma Caruaru como você nunca viu antes. Ferrolho integra uma trilogia que começou com Onde Borges Tudo Vê e será concluída com Pingo d’Água, do qual o diretor rodou a primeira cena aqui mesmo, no interior de Minas, na quarta-feira. A trilogia já ganhou o nome de ‘sem cor’, justamente porque todos filmes são (e o terceiro será) em preto e branco.

É um filme sobre o barro, que os artesãos de Caruaru usam para criar suas peças. Mas eles, como os autores da Mostra Aurora – como Taciano Valério -, também se indagam se é lícito ficar repetindo sempre as mesmas peças. Até o artesanato precisa de novas formas, que dirá o cinema. A metalinguagem não é tudo. Ferrolho refere-se ao barro humano – a frágil humanidade, com suas drogas. Ferrolho, cria do Bandido da Luz Vermelha – o cult marginal de Rogério Sganzerla -, como o protagonista de Casa Vazia, de Kim Ki-duk, entra nas casas abastadas, mas não para roubar. Rouba calcinhas de mulher para um amigo, prepara uma refeição, curte seu futebol no radinho de pilhas e, na saída, como cartão de visitas, defeca.

Há uma forte presença do Cinema Marginal em Ferrolho e, embora o diretor cite Sganzerla, sua maneira de filmar a cidade e o povo que vive em suas bordas, tem algo de Ozualdo Candeias, em A Margem. Ao redor de Ferrolho gravitam os demais personagens – a mãe lésbica, o avô bêbado, a avó que também tem sua droga, mas cobra respeito do neto. O barro é um material que se transforma, vira matéria de criação. O outro barro, a m…, vira gesto político, porque os ricos merecem, como diz um seguidor de Ferrolho, entrevistado na TV. O filme é uma explosão de criatividade. Irregular, talvez, mas Caruaru, filmada em preto e branco, deslumbra. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.